Que fatores influenciam a toxicidade financeira do paciente de câncer na perspectiva do profissional de saúde? Pesquisa aponta que o custo de medicamentos/tratamentos e a cobertura de planos de saúde são vistos como as principais fontes de toxicidade financeira em países de alta renda, enquanto em países de baixa e média renda o custo de transporte, a perda de emprego em consequência do diagnóstico de câncer e a indisponibilidade de serviços de recolocação profissional estão entre as principais causas. O trabalho tem participação de Cristiane Bergerot (foto), da Oncoclínicas, em artigo no JCO Global Oncology.

A toxicidade financeira (TF) se refere ao fardo econômico e tem efeitos prejudiciais no bem-estar e na qualidade de vida dos pacientes e suas famílias, inclusive com acúmulo de dívidas ou situações de falência, comprometendo por vezes a própria adesão ao tratamento. “O diagnóstico de câncer vem com TF importante, principalmente pelo aumento exponencial dos custos do tratamento oncológico nos últimos anos”, destacam os pesquisadores, em estudo que buscou explorar necessidades sociais não atendidas e fontes de toxicidades financeiras em pacientes, na perspectiva de profissionais de saúde e pesquisadores em cuidados de suporte ao câncer.

Neste estudo transversal, foram pesquisados anonimamente membros ativos da Multinational Association of Supportive Care in Cancer (MASCC). A pesquisa foi estruturada em três seções e incluiu perguntas sobre a avaliação de rotina das necessidades sociais durante as consultas do paciente, aspectos sociodemográficos, fatores que influenciam a toxicidade financeira, suporte percebido para gerenciar a TF e recursos disponíveis/desejáveis.

Um total de 218 membros da MASCC foram incluídos, predominantemente de países de alta renda (HIC, 73,4%), com idade entre 41 e 60 anos (56,5%), majoritariamente mulheres (56,9%).

O custo de medicamentos/tratamentos e a cobertura de planos de saúde foram as principais fontes de TF percebidas em países de alta renda, enquanto os participantes de países de baixa e média renda consideraram o custo de transporte, a perda de emprego em consequência do diagnóstico de câncer e a indisponibilidade de serviços de recolocação profissional como as três principais fontes de TF.  

Os entrevistados de países de baixa renda (odds ratio ajustada [aOR], 3,01 [IC de 95%, 1,15 a 7,93]) e médicos (aOR, 2,67 [IC de 95%, 1,15 a 6,21]) foram mais propensos a avaliar rotineiramente as coberturas financeiras. O status socioeconômico foi consistentemente classificado como uma das três principais fontes de toxicidade financeira pelos participantes de países de baixa renda (34%), países de alta renda excluindo os Estados Unidos (38%), entre médicos (40%) e aqueles que não se identificam como minoria racial/étnica (36%).

“Esta pesquisa global de profissionais de saúde e pesquisadores em países de alta e baixa renda revelou abordagens variadas para avaliar a cobertura financeira e as necessidades sociais. O status socioeconômico surgiu como uma preocupação consistente em todos os países, afetando a toxicidade financeira”, concluem os autores, que destacam a necessidade de abordagens personalizadas e melhor visibilidade dos recursos, ao mesmo tempo em que enfatizam o papel fundamental dos clínicos nos aspectos financeiros do tratamento do câncer.

Referência:

Alexandre Chan et al., Financial Toxicity in Cancer Supportive Care: An International Survey. JCO Glob Oncol 10, e2400043(2024).
DOI:10.1200/GO.24.00043