Onconews - Ferramenta digital melhora qualidade de vida de jovens sobreviventes de câncer de mama

Uma intervenção de saúde móvel (mHealth) voltada a adolescentes e jovens adultas sobreviventes de câncer de mama demonstrou melhora significativa da qualidade de vida e redução de sintomas específicos, como problemas vaginais e no braço. Os dados são de um estudo clínico randomizado apresentado no SABCS 2025. Batizada de Young, Empowered & Strong (YES), a ferramenta combina monitoramento seriado de desfechos relatados pelas pacientes (ePROs) com conteúdos educativos personalizados, estratégias de autocuidado e apoio psicossocial. O estudo foi apresentado por Ann Partridge (foto), oncologista do Dana-Farber Cancer Institute.

A incidência de câncer de mama em mulheres entre 15 e 39 anos aumentou, em média, 0,6% ao ano entre 1975 e 2022. “Jovens adultas com câncer de mama têm maior probabilidade de sofrer emocional e fisicamente após o diagnóstico do que mulheres mais velhas”, disse Partridge, observando que os sistemas de saúde não estão preparados para atender às necessidades intensivas dessas pacientes após o término do tratamento ativo contra o câncer, quando ainda podem estar enfrentando suas consequências.

“Embora muitas queixas físicas agudas se resolvam após o tratamento inicial, o impacto físico, emocional e psicossocial a longo prazo na trajetória de vida de uma jovem pode piorar ou se tornar evidente apenas na fase de sobrevivência, quando recebem muito menos atenção do sistema de saúde”, afirmou.

A plataforma YES, acessível via web e aplicativo, fornece informações e suporte de acordo com os sintomas e preocupações relatados mensalmente pelas usuárias. Ansiedade, dor, sintomas menopausais, fertilidade, imagem corporal e questões financeiras estão entre os temas abordados. O programa também inclui escrita expressiva guiada e um chat monitorado entre pares, promovendo apoio social entre jovens sobreviventes.

Nesse ensaio clínico multicêntrico, 360 mulheres entre 15 e 39 anos diagnosticadas com câncer de mama estádios 0 a III, com até três anos do diagnóstico, foram randomizadas para receber a intervenção YES (n=179) ou cuidado habitual (n=181). Os grupos randomizados estavam bem equilibrados. O tempo mediano desde o diagnóstico foi de 19 meses (variação de 3 a 36 meses), e a idade mediana ao diagnóstico foi de 34 anos (variação de 21 a 39 anos). 81% se autodeclararam brancas, 6% negras, 5% asiáticas e 7% hispânicas. 89% residiam em áreas urbanas, 81% possuíam diploma universitário, 70% eram casadas ou viviam em união estável e 57% tinham filhos. 77% receberam quimioterapia e 66% estavam em terapia endócrina oral no momento da inclusão no estudo.

A qualidade de vida foi avaliada pelo questionário Quality of Life in Adult Cancer Survivors (QLACS), que contempla qualidade de vida geral (avaliando aspectos como bem-estar emocional, fadiga, dor, relacionamentos sociais e senso de propósito) e específica para o câncer (avaliando aspectos como preocupação com a recorrência do câncer, alterações na aparência, problemas sexuais e o impacto do câncer na saúde e na perspectiva de vida).

Na linha de base, as pontuações médias do QLACS foram de 86,3 (DP = 27,8) para qualidade de vida geral e 52,5 (DP = 19,3) para qualidade de vida específica para o câncer no grupo YES, e de 79,7 (DP = 29,4) e 48,9 (DP = 18,9) no grupo de tratamento padrão. Pontuações mais altas no QLACS indicam pior qualidade de vida.

Após seis meses, as pontuações médias do QLACS para qualidade de vida geral diminuíram 8,7 pontos no grupo YES e 1,6 pontos no grupo de tratamento padrão, indicando uma melhora maior na qualidade de vida no grupo randomizado para o YES. Além disso, as pontuações médias de qualidade de vida específica para o câncer diminuíram 7,8 pontos no grupo YES e 3 pontos no grupo de cuidados habituais.

No geral, as diferenças ajustadas na mudança da linha de base para seis meses entre os dois grupos foram estatisticamente significativas, favorecendo o grupo YES tanto para a qualidade de vida geral (redução 4,8 pontos maior com o YES, IC 95% -8,60 a -1,14, p = 0,01) quanto para a qualidade de vida específica para o câncer (redução maior que 3,2 pontos com o YES, IC 95% -5,76 a -0,57, p = 0,02).

“O fato de uma intervenção remota e escalável de saúde móvel (mHealth), que não se conecta diretamente à equipe de atendimento do paciente, mas o apoia no autogerenciamento de seus sintomas e preocupações, ter levado a melhorias significativas, representa uma mudança de paradigma”, avalia Partridge. “A maioria das intervenções que utilizam ePROs e que demonstraram benefícios foram realizadas com pacientes submetidos a terapia ativa com grande esforço clínico, e agora mostramos que uma intervenção de baixo contato, com participação clínica limitada, pode melhorar resultados importantes para os pacientes”, diz.

O estudo também analisou as mudanças em certos sintomas em relação ao nível basal, avaliados pela escala PROMIS de Fadiga, pela Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos (CES-D) e pela escala do Estudo de Prevenção do Câncer de Mama (BCPT). Após seis meses, os sintomas no braço e na vagina, queixas comuns em jovens sobreviventes de câncer de mama, também apresentaram melhora significativa no grupo YES, com uma diferença na mudança média entre os dois grupos de -0,57 para problemas vaginais (IC 95% -0,97 a -0,16) e -0,39 (IC 95% -0,71 a -0,06) para problemas no braço. Houve também uma melhora modesta, porém não estatisticamente significativa, na fadiga. No entanto, não foram encontradas diferenças entre os grupos para os sintomas depressivos medidos pela CES-D ou outros sintomas da BCPT, incluindo ondas de calor, náuseas, controle da bexiga, dor musculoesquelética, problemas cognitivos e problemas de peso.

“A intervenção não pareceu melhorar certos sintomas da menopausa, ansiedade ou depressão, e precisamos trabalhar mais para aprimorar a ferramenta”, disse Partridge. “Mas esse tipo de intervenção tem o potencial de melhorar a saúde e o bem-estar de várias outras populações de difícil acesso, como jovens adultos ocupados e americanos residentes em áreas rurais com menos condições de acessar pessoalmente os recursos e o suporte dos centros de tratamento de câncer”, destaca.

Entre as limitações apontadas estão possível viés de engajamento, a mudança de plataforma tecnológica durante o estudo e o contexto da pandemia de COVID-19, que pode ter influenciado a interação das participantes com a ferramenta. Além disso, as pacientes foram recrutadas em centros acadêmicos, onde o acesso a recursos de apoio pode ser maior do que em outros cenários.

O estudo foi financiado pelo National Cancer Institute (NCI/NIH), com apoio adicional da Breast Cancer Research Foundation e da Susan G. Komen.

Referência:

GS3-03 - Randomized controlled trial of Young, Empowered & Strong (YES), an mHealth intervention for adolescent and young adult breast cancer survivors - A. H. Partridge, N. Graham, K. E. Dibble, N. Tayob, Y. Zheng, E. J. Johnson, C. Hery, K. Williams, S. Darai, E. F. Harden, M. M. Durant, A. P. Davenport, C. R. Degraffinreid, T. S. Nolan, M. Contreras, N. Roma, S. A. Mitchell, D. Schrag, D. Hershman, S. M. Rosenberg, M. J. Naughton.