A terapia com o radioligante 177Lu-PSMA-617 pode oferecer benefício clínico e estatisticamente significativo de sobrevida livre de progressão radiográfica em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração e virgens de taxano, como demonstra estudo apresentado por Oliver Sartor (foto), da Mayo Clinic, destacado como "Abstract of the year", na reunião anual da Sociedade Americana de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SNMMI).

No estudo VISION, 177Lu-PSMA-617 prolongou a sobrevida livre de progressão radiográfica (rSLP) e a sobrevida global (SG) em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração (mCRPC) que receberam terapia anterior com inibidor da via do receptor de andrógeno (ARPI, na sigla em inglês) e taxano. No congresso da SNMMI, realizado em junho, os pesquisadores apresentaram resultados do estudo PSMAfore (NCT04689828), um ensaio de fase 3 que avaliou 177Lu-PSMA-617 em pacientes com mCRPR não tratados com taxano. O oncologista Oliver Sartor, chair do grupo de câncer geniturinário e diretor de ensaios clínicos radiofarmacêuticos na Mayo Clinic Rochester, apresentou os desfechos primários, secundários e exploratórios, incluindo resposta do antígeno prostático específico (PSA), tempo para progressão do PSA e análises de segurança.

Foram inscritos pacientes com mCRPC candidatos à mudança de ARPI e com ≥ 1 antígeno de membrana específico da próstata (PSMA) positivo e nenhuma lesão excludente de PSMA negativo na avaliação por PET/CT com Gálio-68. Candidatos a inibidores de PARP e pacientes com radioterapia sistêmica anterior (< 6 meses antes), imunoterapia (exceto sipuleucel-T) ou quimioterapia (exceto [neo]adjuvante > 12 meses antes) foram inelegíveis. A randomização foi de 1:1 para 177Lu-PSMA-617 (7,4 GBq a cada 6 semanas por 6 ciclos) ou mudança de ARPI (abiraterona ou enzalutamida). Pacientes randomizados para mudança de ARPI puderam fazer o crossover para receber 177Lu-PSMA-617 após revisão centralizada da doença progressiva radiográfica (rPD). O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão radiográfica (rSLP) (critérios RECIST v1.1 modificados por PCWG3) e o desfecho secundário principal foi sobrevida global (SG) (ambos α geral = 0,025, unilateral). Outros desfechos secundários incluíram resposta PSA50 (declínio do PSA ≥ 50% da linha de base), qualidade de vida relacionada à saúde (avaliada pelo questionário Functional Assessment of Cancer Therapy – Prostate (FACT-P)) e segurança. O tempo para progressão do PSA e a taxa de resposta objetiva (ORR) foram desfechos exploratórios.

Resultados

Foram randomizados 468 pacientes (n = 234 por grupo). Na análise primária (duração do estudo, 7,3 meses; N = 467), a rSLP mediana foi de 9,30 meses (IC de 95%: 6,77–NE) para o grupo 177Lu-PSMA-617 e de 5,55 meses (4,04–5,95) para o grupo de mudança de ARPI (HR, 0,41; IC de 95%: 0,29–0,56; p < 0,0001).

 Os resultados foram semelhantes em uma análise exploratória de rSLP na segunda análise interina ​​de SG (HR, 0,43; IC de 95%: 0,33–0,54). Na segunda análise interina ​​(duração do estudo, 15,9 meses; 45,1% das mortes alvo), 123/146 pacientes (84,2%) do grupo de mudança de ARPI que descontinuaram o tratamento por progressão radiográfica fizeram o crossover; houve tendência positiva de SG em favor do 177Lu-PSMA-617 de acordo com o rank-preserving structural failure time (RPSFT), mas não conforme análise de SG não ajustada.

O tempo médio para piora na pontuação total do FACT-P foi maior com 177Lu-PSMA-617 versus mudança de ARPI (7,46 meses [IC 95%: 6,08–8,51] vs 4,27 meses [3,48–4,53]; HR, 0,59; IC 95%: 0,47–0,72). A ORR também foi maior com o radioligante (50,7% [IC 95%, 38,6–62,8] vs 14,9% [7,7–25,0]), assim como foi maior a resposta do PSA50 (57,6% [IC 95%: 50,7–64,3] vs 20,4% [15,4–26,3]) e o tempo médio para progressão do PSA (10,55 meses [IC 95%: 8,57–14,29] vs 4,24 meses [3,48–4,44]; HR, 0,37; IC de 95%: 0,29–0,48).

Em relação à segurança, para 177Lu-PSMA-617 versus mudança de ARPI, a incidência de eventos adversos (EAs) de grau ≥ 3 foi de 34% versus 44%, EAs graves de 20% versus 28% e EAs que levaram à descontinuação de 5,7% versus 5,2%. No grupo 177Lu-PSMA-617, os EAs emergentes de tratamento de qualquer grau de acordo com tópicos de segurança de interesse foram boca seca e mielossupressão (Tabela). A mielossupressão foi o tópico de segurança de interesse de grau ≥ 3 mais comum em ambos os braços.

“177Lu-PSMA-617 prolongou a rSLP, tempo para piora na pontuação total do FACT-P e tempo para progressão do PSA, assim como melhorou a taxa de resposta global e PSA50, versus mudança de ARPI em pacientes com mCRPC positivo para PSMA não tratados com taxano, com perfil de segurança administrável”, concluem os autores.

Table. Treatment-emergent adverse events grouped by safety topics of interest - second OS interim analysis

 

177Lu-PSMA-617

(N=227)

 ARPI change

(N=232)

Any grade

Grade ≥3

Any grade       

Grade ≥3

Safety topic, n (%)

         Dry mouth

131 (57.7)

3 (1.3)

5 (2.2)

0

         Myelosuppression

81 (35.7)

28 (12.3)

49 (21.1)

18 (7.8)

         Hepatoxicity

29 (12.8)

12 (5.3)

32 (13.8)

12 (5.2)

         Renal toxicity

15 (6.6)

3 (1.3)

17 (7.3)

6 (2.6)

         Dry eve

14 (6.2)

0

1 (0.4)

0

         Fractures

9 (4.0)

2 (0.9)

13 (5.6)

7 (3.0)

        QT prolongation

4 (1.8)

1 (0.4)

5 (2.2)

4 (1.7)

        Second primary malignancies

4 (1.8)

2 (0.9)

3 (1.3)

2 (0.9)

        Intracranial hemorrhage

3 (1.3)

1 (0.4)

1 (0.4)

1 (0.4)

        Radiotoxicity including inadvertent exposure

0

0

0

0

Data cut-off, 21 Jun 2023; study durat1on, 15.9 months.
ARPI, androgen receptor pathway inhibitor; PSMA, prostate-specific membrane antigen.

 

Referência:

Abstract 2441064 - Phase 3 trial of [177Lu] Lu-PSMA-617 in taxane-naive patients with metastatic castration-resistant prostate cancer (PSMAfore)
Society of Nuclear Medicine and Molecular Imaging (SNMMI) Annual Meeting
Oliver Sartor
Presenter: Oliver Sartor, Mayo Clinic