Estudo financiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstrou maior redução da mortalidade prematura para todos os cânceres combinados e para tipos específicos de câncer nos países de alta renda em comparação com os países de baixa e média renda.  “No geral, os resultados enfatizam a importância de fortalecer as estratégias de prevenção do câncer”, avalia Isabelle Soerjomataram (foto), médica epidemiologista e vice-chefe da área de Vigilância do Câncer da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). O trabalho foi publicado no Lancet Oncology.

O câncer é uma das principais causas de mortalidade em todo o mundo. Até 2040, a previsão é que ocorram mais de 30 milhões de novos cânceres, com a maior carga nos países de baixo renda. Em 2015, a ONU aprovou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 3.4 (ODS 3.4) para enfrentar a carga crescente das doenças não transmissíveis, que determina a redução de um terço na mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, incluindo o câncer, até 2030. No entanto, há escassez de dados sobre as taxas de mortalidade prematura por tipo de câncer.

Esse estudo retrospectivo, transversal e de base populacional investiga as tendências de mortalidade prematura entre 2000 a 2019, usando os dados das Estimativas de Saúde Global da Organização Mundial da Saúde (OMS). Todos os cânceres combinados e treze cânceres individuais em 183 países foram examinados por região da OMS, nível de rendimento do Banco Mundial e sexo.

O risco de mortalidade prematura foi calculado para idades entre 30 e 69 anos, independentemente de outras causas concorrentes de morte, utilizando métodos padrão de tábuas de mortalidade. O objetivo principal foi calcular a taxa média anual de variação da mortalidade prematura de 2000 a 2019; os objetivos secundários incluíram a avaliação se esta taxa anual de variação seria suficiente para alcançar o a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para a mortalidade prematura até 2030.

Resultados 

O estudo foi conduzido usando dados recuperados para os anos 2000–19. As taxas de mortalidade prematura diminuíram em 138 (75%) dos 183 países em todos os níveis de rendimento do Banco Mundial e regiões da OMS. No entanto, apenas oito (4%) países têm probabilidade de cumprir as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para todos os cânceres combinados.

Os tumores para os quais existem estratégias de deteção precoce, como mama e colorretal, apresentam taxas de mortalidade prematura em declínio mais elevadas nos países de alta renda (câncer de mama 48 [89%] de 54 e câncer colorretal 45 [83%]) em comparação com os países de baixa renda (sete [24%] de 29 e quatro [14%]).

Os cânceres com programas de prevenção primária, como o câncer do colo do útero, têm mais países com taxas de mortalidade prematura em declínio (países de renda alta 50 [93%] de 54 e países de renda baixa 26 [90%] de 29). As disparidades relacionadas com o sexo nas taxas de mortalidade prematura variam entre as regiões da OMS, os grupos de rendimento do Banco Mundial e por tipo de câncer. 

Soerjomataram observa que o estudo fornece uma avaliação crucial de como os países estão progredindo na redução da carga do câncer e trabalhando para alcançar as Metas de Desenvolvimento Sustentável. “As estimativas do nosso Observatório de Câncer Global podem ajudar ainda mais os países a definir prioridades de ação. Por exemplo, os cânceres de pulmão e de fígado são responsáveis ​​por um quarto de todas as mortes prematuras por câncer mundialmente, e podem ser evitados através de estratégias de prevenção bem conhecidas e eficazes como o controle do tabagismo e programas de vacinação contra a hepatite. A implementação dessas estratégias pode significativamente aproximar os países das metas estabelecidas pelos ODS”, destaca.

"No geral, os resultados enfatizam a importância de fortalecer as estratégias de prevenção do câncer, e a IARC está totalmente comprometida em produzir as evidências necessárias para um mundo com menos câncer", conclui a epidemiologista.

Referência:

Premature mortality trends in 183 countries by cancer type, sex, WHO region, and World Bank income level in 2000–19: a retrospective, cross-sectional, population-based study - Shilpa S Murthy, MD MPH; Dario Trapani, MD; Bochen Cao, PhD; Freddie Bray, PhD; Shashanka Murthy, BS; Prof Thomas Peter Kingham, MD et al. Published: July 01, 2024 DOI: https://doi.org/10.1016/S1470-2045(24)00274-2