Reuniões multidisciplinares realizadas online com especialistas de diversos países europeus para discutir o manejo de pacientes com tumores ginecológicos raros e complexos resultaram em novas recomendações de tratamento e no maior acesso a ensaios clínicos. “O tratamento de cânceres ginecológicos raros traz vários desafios em relação à falta de consenso sobre o manejo ou diretrizes compartilhadas e pouca disponibilidade de ensaios clínicos”, afirmou a pesquisadora Alice Bergamini (foto), primeira autora do estudo apresentado no ESMO Gynecological Cancers Congress 2024.1

Mais da metade de todos os cânceres ginecológicos são classificados como cânceres raros, definidos como tumores diagnosticados em menos de 6 pessoas a cada 100 mil habitantes todos os anos.2 Os números baixos significam que muitos centros oncológicos, mesmo os de nível regional e nacional, têm experiência limitada no diagnóstico e tratamento desses pacientes e pouco ou nenhum acesso a ensaios clínicos. Isso pode levar ao atraso no diagnóstico e à disponibilidade limitada de opções de tratamento. As taxas de sobrevida em cinco anos são mais baixas para pacientes com cânceres raros (47%) em comparação com aqueles com cânceres comuns (67%)3.

“Existem desafios e grandes diferenças em termos de obtenção de diagnósticos precisos e oportunos, acesso a novas opções de tratamento e prestação de cuidados harmonizados aos pacientes em diferentes países”, destacou Alice, médica do Ospedale San Raffaele, em Milão, Itália.

A Rede Europeia de Referência para Cânceres Raros em Adultos (do inglês, EURACAN - European Reference Network for Rare Adult Cancers) é uma rede virtual que liga pacientes adultos com cânceres raros a centros de saúde especializados em toda a Europa; o domínio G2 se concentra em tumores ginecológicos raros.4 Como parte do seu trabalho, o EURACAN G2 organiza grupos multidisciplinares para permitir que oncologistas em toda a Europa se reúnam virtualmente para avaliar pacientes individualmente com o objetivo de aumentar o seu acesso a conhecimentos especializados, novos tratamentos e ensaios clínicos.

O estudo apresentado no congresso europeu analisou o impacto dos comitês multidisciplinares EURACAN G2 no atendimento a pacientes por um período de seis anos, entre novembro de 2017 a outubro de 2023. Durante este período, 67 comitês multidisciplinares com participantes de 18 países europeus avaliaram um total de 260 pacientes com tumores ginecológicos complexos (mediana de 4 pacientes/sessão, variação de 1 a 12). O número de casos anuais discutidos aumentou ao longo do tempo (+182% de 2017 a 2022), assim como o número mediano de participantes (+27% de 2020 a 2022).

Os resultados mostraram que o número de pacientes avaliados pelo grupo quase dobrou no período de seis anos. Foram recomendados testes de diagnóstico adicionais em mais de um a cada três pacientes e foram sugeridas novas opções de tratamento além das originalmente planejadas para mais de metade das mulheres. A adesão a estas recomendações de tratamento foi elevada (94%). Bergamini destacou que a vigilância em vez da quimioterapia adjuvante foi recomendada em 17% dos pacientes. “Isto poupou estas mulheres dos potenciais efeitos secundários da quimioterapia”, observou.

Com base nas recomendações dos comitês multidisciplinares, um em cada quatro pacientes obteve acesso a terapias off-label (37 pacientes) ou foi inscrito em ensaios clínicos no exterior (4 pacientes). “Os pacientes puderam ter acesso a terapias off-label ainda não aprovadas para tumores ginecológicos raros, que de outra forma não seriam acessíveis em alguns países”, explicou Bergamini.

“Esta abordagem é fundamental para melhorar o tratamento de pacientes com tumores raros e complexos, reunindo especialistas líderes de áreas relevantes em diferentes países. “Além disso, o networking e a colaboração clínica tiveram um enorme valor educacional para os médicos; aprendemos muito trabalhando juntos nesses conselhos multidisciplinares de tumores”, afirmou.

As novas descobertas que mostram o valor dos comitês multidisciplinares entre países são encorajadoras para a utilização desta abordagem em pacientes com outros tipos de tumores raros. A EURACAN tem atualmente 10 grupos que trabalham em cânceres raros de tumores sólidos em adultos.

“A abordagem de comitês multidisciplinares virtuais que utilizamos para cânceres ginecológicos complexos é completamente viável em outros cânceres raros, como o sarcoma”, disse a oncologista Isabelle Ray-Coquard, presidente do EURACAN G2, acrescentando que estão em curso comitês multidisciplinares para pacientes com sarcoma, e alertou que a utilização desta abordagem em diferentes tipos de tumores raros depende se vai ajudar a satisfazer necessidades não atingidas.

Table: 82MO Patients N=260

DIAGNOSIS

Gestational trophoblastic disease

51(19.6%)

Malignant ovarian germ cell tumors

51 (19.6%)

Sex cord stromal tumors

38 (14.6%)

Other Rare ovarian histologies

76 (29.2%)

Rare uterine tumors

20 (7.8%)

Rare cervical tumors

11 (4.2%)

Other

13 (5%)

PREVIOUS LINES OF TREATMENT(median, range)

1 (0-10)

INDICATIONS FOR DISCUSSION*

Initial management

117(42.5%)

Relapse/disease Progression

133(48.4%)

Other (follow up, further investigation)

25(9.1%)

* N= 275 case discussions

 

Referências:

1 - Bergamini A, Joneborg U, Marquina G et al. European multi-disciplinary tumor boards within the EURACAN network increasingly support management of patients with rare gynecological tumors: 6 year activity results. Abstract 82MO that will be presented at the ESMO Gynaecological Cancers Congress 2024 (20-22 June), Mini Oral Session on Friday, 21 June, 10:20 to 11:50 (CEST) in the Auditorium. 

2 - Blay J-Y, Casali P, Bouvier C et al. European Reference Network for rare adult solid cancers, statement and integration to health care systems of member states: a position paper of the ERN EURACAN ESMO Open 2021; 6, 100174 

3 - Joneborg U, Bergamini A, Wallin E et al. European multidisciplinary tumor boards support cross-border networking and increase treatment options for patients with rare gynecological tumors. 

4 - International Journal of Gynecological Cancer 2023; 33: 1621-1626 EURACAN. https://euracan.eu. Accessed 4 June 2024.