Maria Paula Curado NET OKGiovana Alice Soares, pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG), é primeira autora de estudo que avaliou a associação entre hábitos alimentares e infecção por H. pylori em pacientes de um hospital de referência no Brasil Central. O trabalho contou com a participação de Maria Paula Curado (foto), do AC Camargo Cancer Center, e tem como autora sênior a pesquisadora Mônica Santiago Barbosa, da UFG.

Desde 1994, Helicobacter pylori (H. pylori) é reconhecido como um carcinógeno do grupo 1 pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer e agente etiológico de doenças gástricas, como gastrite, úlceras e câncer gástrico. O H. pylori infecta aproximadamente metade da população mundial e a prevalência da infecção por H. pylori na América Latina e no Caribe é estimada em 69,26% em adultos.

No Brasil, diferenças regionais se refletem em uma grande variação na prevalência da infecção por H. pylori, que é maior no norte do que no sul do país.  Especialmente na região Centro-Oeste do Brasil, foi relatada alta prevalência de infecção por H. pylori. Como a presença dessa infecção pode ser influenciada pela alimentação, é importante conhecer os alimentos que atuam como fatores de proteção e também aqueles que podem favorecer a infecção. No entanto, dados sobre a associação entre dieta e infecção por H. pylori nesta região são limitados, motivando esta avaliação sobre hábitos alimentares e infecção por H. pylori em pacientes internados em um hospital de referência no Centro-Oeste brasileiro.

Neste estudo transversal, foram incluídos 156 pacientes de 2019 a 2022. Os dados foram coletados por questionário estruturado sobre características sociodemográficas e de estilo de vida, além de questionário de frequência alimentar validado. O status da infecção por H. pylori (positivo versus negativo) foi determinado pelo método histopatológico. Após gramas/dia, os alimentos foram estratificados em tercis de consumo (baixo, médio e alto). Modelos de regressão logística binária simples e múltipla foram utilizados na análise dos odds ratios (OR) e seus respectivos intervalos de confiança (IC) de 95%, com nível de significância de 5%.

Os resultados mostram que a prevalência de infecção por H. pylori foi de 44,2% (69/156 pacientes). Os pesquisadores descrevem que indivíduos infectados tinham idade média de 49,6 ± 14,6 anos; 40,6% homens, 34,8% tinham 60 anos ou mais, 42,0% eram solteiros, 7,2% tinham ensino superior, 72,5% eram não-brancos e 30,4% eram obesos. No grupo H. pylori positivo, 55,1% eram consumidores de álcool e 42,0% fumantes. As análises múltiplas mostraram que a chance de infecção por H. pylori foi maior entre participantes do sexo masculino (OR = 2,25; IC = 1,09–4,68) e indivíduos com obesidade (OR = 2,68; IC = 1,10–6,51). Participantes com consumo moderado de grãos refinados (pão, biscoitos, bolos, cereais matinais) (OR = 2,41; IC = 1,04–5,62) e frutas (OR = 2,53; IC = 1,08–5,94) tiveram maior probabilidade de serem infectados (veja tabela abaixo).

 “Neste estudo, o sexo masculino, a obesidade e o consumo de grãos e frutas refinados foram positivamente associados à infecção por H. pylori”, concluem os autores, destacando que mais pesquisas são necessárias para investigar esta associação e elucidar os mecanismos subjacentes.

A íntegra do estudo está disponível em acesso aberto.

Dietary habits of the study participants from 2019 to 2022 in Goiania, Goiás, Brazil

Food groups

H. pylori positive

N=69

(44.2%)

H. pylori negative

N=87

(55.8%)

p Value

Refined grains (g/day)

 ≤ 43.04

17 (24.6)

35 (40.2)

0.089a

 43.05–83.87

28 (40.6)

24 (27.6)

 

 ≥ 83.88

24 (34.8)

28 (32.2)

 

Milk and dairy products (g/day)

 ≤ 37.25

19 (27.5)

33 (37.9)

0.363a

 37.26–132.52

26 (37.7)

26 (29.9)

 

 ≥ 132.53

24 (34.8)

28 (32.2)

 

Fruit (g/day)

   

 ≤ 105.97

19 (27.5)

33 (37.9)

0.056a

 105.98–235.18

30 (43.5)

22 (25.3)

 

 ≥ 235.19

20 (29.0)

32 (36.8)

 

Cereals and legumes (g/day)

 ≤ 240.30

25 (36.2)

27 (31.0)

0.679a

 240.31–426.58

20 (29.0)

24 (27.6)

 

 ≥ 426.59

24 (34.8)

36 (41.4)

 

Vegetables (g/day)

 ≤ 78.24

23 (33.3)

28 (32.2)

0.985a

 78.25–132.47

23 (33.3)

29 (33.3)

 

 ≥ 132.48

23 (33.3)

30 (34.5)

 

Sweets (g/day)

 ≤ 13.62

22 (31.9)

29 (33.3)

0.658a

 13.63–47.87

26 (37.7)

27 (31.0)

 

 ≥ 47.88

21 (30.4)

31 (35.6)

 

Salted and processed meats (g/day)

 ≤ 8.57

21 (30.4)

33 (37.9)

0.607a

 8.58–39.28

23 (33.3)

27 (31.0)

 

 ≥ 39.29

25 (36.2)

27 (31.0)

 

Red meats and offal (g/day)

 ≤ 78.01

25 (36.2)

27 (31.0)

0.732a

 78.02–132.29

23 (33.3)

29 (33.3)

 

 ≥ 132.30

21 (30.4)

31 (35.6)

 

White meats (g/day)

 ≤ 24.17

20 (29.0)

32 (36.8)

0.227a

 24.18–57.86

28 (40.6)

24 (27.6)

 

 ≥ 57.87

21 (30.4)

31 (35.6)

 

Sugar-sweetened beverages (ml/day)

 ≤ 102.86

22 (31.9)

33 (37.9)

0.646a

 102.87–274.29

22 (31.9)

28 (32.2)

 

 ≥ 274.30

25 (36.2)

26 (29.9)

 

Hot beverages (ml/day)

 ≤ 98.57

22 (31.9)

31 (35.6)

0.780a

 98.58–229.74

22 (31.9)

29 (33.3)

 

 ≥ 229.75

25 (36.2)

27 (31.0)

 

Alcoholic beverages (ml/day)

 0

57 (65.5)

40 (58.0)

0.339b

 0.01–3.83

5 (5.7)

2 (2.9)

 

 ≤ 3.84

25 (28.7)

27 (39.1)

 

a - Pearson’s chi-square test.

b - Fisher’s exact test

Referência: Soares GAS, Moraes FA de S, Ramos AFPL, et al. Dietary habits and Helicobacter pylori infection: is there an association? Therapeutic Advances in Gastroenterology. 2023;16. doi:10.1177/17562848231160620