OvarioEstudo que relatou tendências temporais na sobrevida de pacientes com câncer cervical durante um período de 40 anos em mulheres com diagnóstico preexistente de transtorno mental revela pior sobrevida global e específica para câncer cervical nessa coorte de pacientes comparada a mulheres sem diagnóstico preexistente de transtorno mental.

Mulheres com transtorno mental são menos propensas a participar de exames cervicais e de vacinação contra o papilomavírus humano, representando uma população que pode obter benefício menor da prevenção do câncer do colo do útero. Estudo sueco comparou características clínicas e padrões de sobrevida entre pacientes com câncer de colo do útero com e sem diagnóstico preexistente de transtorno mental no momento do diagnóstico oncológico.

Neste estudo de coorte, os pesquisadores utilizaram dados de base populacional (Registro Sueco de Câncer, Registro Sueco de Causas de Morte, Registro Sueco de População Total, Registro Sueco de Pacientes e Banco de dados Sueco de Integração Longitudinal para Seguros de Saúde e Estudos do Mercado de Trabalho) e registros de qualidade (Registro Sueco de Qualidade de Câncer Ginecológico e Registro Nacional Sueco de Triagem Cervical) em pacientes com câncer cervical.

A análise incluiu pacientes identificados no Registro Sueco de Câncer, diagnosticadas com câncer cervical entre 1978 e 2018. O Registro Sueco de Pacientes foi usado para identificar pacientes com transtornos mentais a partir dos códigos da Classificação Internacional de Doenças (8ª e 9ª revisão) e da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (10ª revisão). Como os dados sobre as características clínicas no momento do diagnóstico de câncer estavam disponíveis apenas para uma parte da população do estudo, foram criados 2 grupos de pacientes: aquelas com câncer cervical diagnosticadas de 2002 a 2016 e todas as pacientes diagnosticadas com câncer cervical (1978-2018). As análises dos dados foram realizadas entre março e setembro de 2022.

A amostra incluiu 2.0177 mulheres (idade média [DP], 53,4 [17,7] anos) diagnosticadas com câncer cervical de 1978 a 2018. Em um subgrupo de 6.725 mulheres (idade média [DP], 52,2 [18,0] anos) com câncer cervical diagnosticadas de 2002 a 2016, um total de 893 (13,3%) tinha diagnóstico preexistente de transtorno mental. Em comparação com pacientes sem diagnóstico de transtorno mental preexistente, aquelas com transtorno mental preexistente apresentaram maior risco de morte por qualquer causa (razão de risco [HR], 1,32; IC 95%, 1,17-1,48) e por câncer cervical (HR, 1,23; IC 95%, 1,07-1,42). Esses riscos foram menores após ajuste para características do câncer no momento do diagnóstico (morte por qualquer causa: HR, 1,19 [IC 95%, 1,06-1,34] e morte por câncer cervical: HR, 1,12 [IC 95%, 0,97] -1,30]).

O risco de morte foi maior para pacientes com abuso de substâncias, transtornos psicóticos ou transtornos mentais que necessitavam de cuidados hospitalares. Entre as pacientes com câncer cervical diagnosticadas de 1978 a 2018, a sobrevida estimada em 5 anos melhorou continuamente durante o período do estudo, independentemente do diagnóstico preexistente de transtorno mental. Em 2018, por exemplo, a proporção estimada de sobrevida global em 5 anos foi de 0,66 (IC 95%, 0,60-0,71) e 0,74 (IC 95%, 0,72-0,76) para pacientes com e sem diagnóstico preexistente de transtorno mental, respectivamente.

“Os resultados deste estudo de coorte sugerem que pacientes com câncer cervical e diagnóstico preexistente de transtorno mental têm pior sobrevida global e específica para câncer cervical do que pacientes sem diagnóstico preexistente de transtorno mental, o que pode ser parcialmente atribuído ao câncer e às características sociodemográficas ao diagnóstico. Assim, indivíduos com transtornos mentais merecem atenção especial na prevenção terciária do câncer do colo do útero”, concluem os autores.​

Em síntese, neste estudo de coorte de mulheres na Suécia com diagnóstico de câncer do colo do útero entre 1978 e 2018, os pesquisadores encontraram uma mortalidade global mais elevada em pacientes que tinham diagnóstico preexistente de transtorno mental em comparação com pacientes sem diagnóstico de transtorno mental preexistente. A associação permaneceu após ajustes adicionais para outras características, incluindo estágio do câncer e características histológicas do tumor. Os autores destacam que, na coorte avaliada, a sobrevida estimada em 5 anos de pacientes com câncer do colo do útero aumentou de 1978 a 2018, independentemente do diagnóstico preexistente de transtorno mental, mas as diferenças relativas na sobrevida entre mulheres com e sem diagnóstico de transtorno mental persistiram.

“Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a relatar tendências temporais na sobrevida de pacientes com câncer cervical com diagnóstico preexistente de transtorno mental durante um período de 40 anos”, destacam.

Referência: Herweijer E, Wang J, Hu K, et al. Overall and Cervical Cancer Survival in Patients with and Without Mental Disorders. JAMA Netw Open. 2023;6(9):e2336213. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.36213