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AtualizadoQui, 22 Abr 2021 4am

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Daichii Sankyo

Polimorfismos no câncer esofágico

dr_heber_Bx.jpgO cirurgião oncológico Heber Salvador de Castro Ribeiro (foto), Diretor de Ensino e Residência Médica da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), comenta artigo publicado no Lancet Oncology, com resultados da metanálise que avaliou o sequenciamento genético em câncer de esôfago e esôfago de Barrett. O trabalho considerou 6167 pacientes com esôfago de Barret e 4112 indivíduos com adenocarcinoma esofágico genotipados em quatro estudos na Europa, América do Norte e Austrália, e identificou oito novos loci de risco para as doenças.

O esôfago de Barrett é o precursor do adenocarcinoma esofágico, um dos cânceres que mais cresce em países de alta renda. No entanto, diante da ausência de preditores válidos, é difícil saber que pacientes com esôfago de Barret vão desenvolver adenocarcinoma. Com o objetivo de mudar esse cenário, pesquisadores realizaram estudo de metanálise para identificar variantes de risco genético associadas ao desenvolvimento de esôfago de Barrett e do adenocarcinoma do esôfago. 

Métodos
 
Foram considerados nessa metanálise todos os estudos que associaram genomas ao esôfago de Barrett e adenocarcinoma esofágico publicados na PubMed até 29 de fevereiro de 2016. Ao todo, 4 estudos foram selecionados na Europa, América do Norte e Austrália. Os pacientes eram de ascendência europeia, com doença confirmada histologicamente. Todos os participantes foram avaliados por genotipagem em alta densidade para polimorfismos de nucleotídeo único (SNP).
 
Resultados
 
Foram identificados oito novos loci de risco associado com esôfago de Barret ou adenocarcinoma esofágico na amostra avaliada, de 6167 pacientes com esôfago de Barrett e 4112 indivíduos com adenocarcinoma esofágico, além de 17 159 controles, a partir de quatro estudos na Europa, América do Norte e Austrália.
 
Os loci de risco foram associados aos genes CFTR (rs17451754), MSRA (rs17749155), LINC00208 e BLK (rs10108511), KHDRBS2 (rs62423175), TPPP e CEP72 (rs9918259), TMOD1 (rs7852462), SATB2 (rs139606545) e HTR3C e ABCC5 (rs9823696). Os loci HTR3C e ABCC5 (rs9823696) foram associados especificamente com adenocarcinoma esofágico, independente do desenvolvimento do esôfago de Barrett (p = 0 · 45).
 
Após a reponderação dos dados, um nono locus de risco foi identificado dentro do gene LPA (rs12207195).
 
A conclusão dos autores é de que o estudo de metanálise dobrou o número de loci de risco conhecidos para o esôfago de Barrett e adenocarcinoma esofágico e revelou novos insights sobre as causas dessas doenças. Além disso, a associação específica entre o adenocarcinoma esofágico e o loci HTR3C e ABCC5  pode constituir um novo marcador genético para a previsão da transição do esôfago de Barrett para adenocarcinoma esofágico.
 
O adenocarcinoma esofágico é um câncer fatal, que apesar de diferentes estratégias de tratamento permanece com mau prognostico, reforçando a importância de estratégias de vigilância e intervenção eficazes.

Análise

Por Heber Salvador de Castro Ribeiro* 

O adenocarcinoma do esôfago distal e da transição esôfago-gástrica é uma doença fatal em um grande número de pacientes e cuja incidência teima em aumentar a despeito do comportamento contrário observado em tumores gástricos e de outros sítios do trato digestivo. Os fatores de risco para sua ocorrência foram sendo identificados ao longo dos últimos anos, incluindo a tríade bem estabelecida de obesidade, doença do refluxo gastro-esofágico e o esôfago de Barrett.
 
Apesar desta melhor compreensão de fatores clínicos, epidemiológicos e patológicos das lesões precursoras, a desproporção de casos de Barrett e de adenocarcinoma e a ocorrência da neoplasia sem fatores predisponentes identificáveis continua a desafiar diuturnamente os profissionais que cuidam destes pacientes. Na prática clínica ainda não há protocolos estabelecidos de rastreamento e detecção precoce destes tumores exatamente pela inexistência de dados concretos de identificação dos pacientes sob maior risco de sua ocorrência e/ou de progressão do Epitélio Colunar para a neoplasia. Quem, no universo de pacientes com Esôfago de Barrett vai evoluir para o adenocarcinoma? Será que os fatores que nós levamos em consideração atualmente, incluindo a displasia (de caracterização tão heterogênea entre os patologistas) e a extensão da metaplasia são realmente os principais drivers deste processo? Em época de oncologia de precisão, a impressão que fica é que ainda não conseguimos estabelecer com segurança quem deve receber tratamento mais invasivo para suas condições de base e seguimos diagnosticando tardiamente e perdendo inúmeras vidas para o adenocarcinoma de esôfago e TEG.
 
Neste sentido, estudos como este, baseados em sequenciamento gênico de larga escala incluindo pacientes sem lesões precursoras, com Esôfago de Barrett e com adenocarcinoma esofágico lançam luz sobre uma perspectiva de rastreio personalizado que poderia em última análise contribuir para uma redução da mortalidade desta neoplasia. Esta metanálise utilizou dados de três grandes estudos de sequenciamento populacional de genes ligados à esta doença, enumerando nove associações significativas incluindo o achado do loci HTR3C e ABCC5 que predisse a progressão Barrett – adenocarcinoma de modo mais preciso.
 
É sem dúvida uma boa notícia para a melhor compreensão da doença e sua fisiopatologia e aguardamos que estes dados possam ser validados em estudos dirigidos destes loci de risco em outros grupos populacionais, incluindo amostras de pacientes latinos e afrodescendentes (não incluídos nesta primeira análise) e que, finalmente, tenhamos uma ferramenta eficaz de apontar o lobo escondido no rebanho.

*Heber Salvador de Castro Ribeiro é cirurgião oncológico do A.C.Camargo Cancer Center e Diretor de Ensino e Residência Médica da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO)

Referência: Genome-wide association studies in oesophageal adenocarcinoma and Barrett's oesophagus: a large-scale meta-analysis - Gharahkhani, Puya et al. - The Lancet Oncology - Published Online: 12 August 2016
DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S1470-2045(16)30240-6
 


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