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AtualizadoQua, 29 Jun 2022 9pm

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Daichii Sankyo

Carcinoma da orofaringe associado a HPV, da epidemiologia à rotina clínica

gilberto castroO carcinoma espinocelular da orofaringe (OPSCC, da sigla em inglês) positivo para o papilomavírus humano (HPV+) tem uma das incidências que mais aumentam em países de alta renda, quando comparado a qualquer outro tipo de câncer. Revisão publicada na Nature Review Clinical Oncology apresenta um resumo da epidemiologia, biologia molecular e manejo clínico do câncer de orofaringe HPV+ em um esforço para destacar avanços importantes com impacto na rotina clínica. Quem analisa o trabalho é o oncologista Gilberto de Castro Junior (foto), professor da disciplina de oncologia da Faculdade de Medicina da USP e médico do ICESP e do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

Os autores destacam que a mais recente (8ª) edição do sistema de estadiamento UICC/AJCC separa o OPSCC HPV+ do seu homólogo HPV-negativo (HPV-) para explicar o melhor prognóstico observado no primeiro. “De fato, devido ao melhor prognóstico e maior prevalência em indivíduos mais jovens, vários estudos em andamento estão examinando o potencial de desintensificação do tratamento para melhorar a qualidade de vida, mantendo resultados de sobrevida aceitáveis”, sublinham.

Estimativas indicam que a incidência do câncer de orofaringe associado ao papilomavírus humano (OPSCC HPV+) deve continuar a aumentar nas próximas décadas, até que os benefícios da vacinação profilática contra o HPV comecem a se manifestar.

A revisão descreve que o OPSCC se apresenta mais comumente como uma massa no pescoço ou dor de garganta, mas também pode se apresentar como disfagia, massa visualizada, sensação de globo, odinofagia ou otalgia. A maioria dos pacientes apresenta pequenos tumores primários (T1 ou T2) e metástases nodais. “A apresentação clínica do OPSCC pode ser facilmente confundida com outras condições benignas comuns, como refluxo laringofaríngeo ou globo faríngeo, portanto, massas cervicais assintomáticas devem idealmente ser avaliadas por meio de ultrassonografia confirmatória e biópsia por agulha fina”, afirmam, ressalvando que um subgrupo de pacientes pode apresentar apenas linfadenopatia cervical.

Para discriminar com precisão o status do HPV, a combinação de coloração imuno-histoquímica (IHC) para p16 e a hibridização in situ (ISH) para HPV de alto risco demonstra níveis aceitáveis ​​de sensibilidade (97%) e especificidade (94%) e pode ser realizada usando tecido fixado em formalina e conservado em parafina. “A 8ª edição da AJCC recomenda o uso de IHC p16 apenas como substituto (surrogate) para o status de HPV porque a positividade de p16 por si só não é suficiente para detectar HPV transcricionalmente ativo em todos os pacientes”, reforçam os autores. A revisão lembra, ainda, de evidências que demonstram sobrevida global (SG) em 5 anos significativamente menor em pacientes com câncer de orofaringe p16+/HPV– quando comparados a pacientes com OPSCC p16+/HPV+ (33% versus 77%, P < 0,0001).

Em razão dessa biologia distinta dos OPSCCs HPV+, terapias-alvo e imunoterapias constituem uma área de particular interesse. Lechner et al. analisam que, com as terapias atualmente disponíveis, identificar métodos seguros de de-escalonamento da quimiorradiação tem sido objetivo de diferentes ensaios clínicos que avaliam a desintensificação do tratamento, ainda que ~15% dos pacientes com OPSCC HPV+ evoluam com recorrência da doença e, portanto, demandem tratamento mais intensivo.

“Em última análise, existe a necessidade de ampliar a compreensão da base molecular e do curso clínico desta doença para orientar os esforços para a detecção precoce e cuidados de precisão capazes de melhorar os resultados dos pacientes”, destacam os autores.

A íntegra do artigo está disponível em acesso aberto.

Tratamento deve ser avaliado individualmente, em caráter multidisciplinar

Por Gilberto de Castro Junior, professor da disciplina de oncologia da Faculdade de Medicina da USP e médico do ICESP e do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo

Com a diminuição da incidência do carcinoma de células escamosas (CEC) de cabeça e pescoço, a histologia mais frequente do carcinoma originado na mucosa da cavidade oral, orofaringe, hipofaringe e laringe, relacionado ao tabagismo e etilismo, o CEC da orofaringe relacionado ao papilomavírus humano (HPV) emerge como uma neoplasia maligna de incidência crescente, em especial nos países desenvolvidos. Estima-se que entre 50% a 70% dos casos de CEC de orofaringe nos EUA e Reino Unido sejam HPV-relacionados. No Brasil, nosso grupo revelou uma prevalência de 11% (Mariz et al. Crit Rev Oncol Hematol. 2020 Dec;156:103116. doi: 10.1016/j.critrevonc.2020.103116).

Nesse cenário, Lechner e colaboradores recém publicaram em Nat Rev Clin Oncol  (doi: 10.1038/s41571-022-00603-7) uma excelente revisão sobre a epidemiologia, dados de biologia molecular e o manejo clínico do CEC de orofaringe HPV-relacionado. Quanto aos aspectos epidemiológicos, os autores ressaltam a sua incidência crescente, e a importância da transmissão sexual como causa da infecção oral pelo HPV, relacionada ao desenvolvimento desta neoplasia. Como não há método de rastreamento (detecção precoce) ainda descrito, a importância da vacinação anti-HPV como medida de prevenção secundária do CEC de orofaringe HPV-relacionado se torna mais evidente.

Cabe aqui ressaltar que a presença da infecção pelo HPV nas amostras de biópsia de CEC de orofaringe tem duas implicações imediatas, a saber: (1) os descritores T-N-M do estadiamento são específicos para estes casos (AJCC/UICC 8ª edição), sendo necessário, de acordo com as recomendações vigentes a pesquisa da imunoexpressão de p16, marcador substitutivo da presença do vírus, sendo considerados positivos os casos com forte expressão nuclear/citoplasmática na enorme maioria das células neoplásicas; (2) o melhor prognóstico desses casos em comparação com suas contrapartidas HPV negativas.

Assim, especificidades de seu tratamento curativo, como o emprego de cirurgia transoral assistida por robótica e a (quimio)radioterapia adjuvante ou como tratamento definitivo, precisam ser avaliadas em cada caso, dentro de discussões multidisciplinares, a fim de preservar as altas taxas de cura e sobrevida a longo prazo, com menor toxicidades aguda e tardia.

Vale a leitura!

Referência: Lechner, M., Liu, J., Masterson, L. et al. HPV-associated oropharyngeal cancer: epidemiology, molecular biology and clinical management. Nat Rev Clin Oncol (2022). https://doi.org/10.1038/s41571-022-00603-7


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