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AtualizadoSeg, 12 Abr 2021 12am

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Daichii Sankyo

Estudo de mundo real repete resultados do CLEOPATRA trial

cesar cabello 2020 bxCom o objetivo de descrever os resultados clínicos de uma população de pacientes com câncer de mama metastático HER2 positivo, pesquisadores da Universidade de Copenhagen avaliaram mulheres que receberam pertuzumabe e trastuzumabe como tratamento de primeira linha no mundo real. “Fomos capazes de capturar dados de quase 300 pacientes HER2 positivo  que receberam pertuzumabe e trastuzumabe, principalmente com vinorelbina como espinha dorsal da quimioterapia, e demonstramos que a eficácia dessa combinação em uso no mundo real é comparável aos resultados obtidos no ensaio randomizado”, destacou o estudo dinamarquês, reportado em artigo de Christensen et al., na The Breast1. Quem comenta é o mastologista César Cabello (foto), Professor Associado da UNICAMP e Coordenador da Área de Mastologia do Hospital da Mulher (CAISM/UNICAMP).

Para esta análise nacional de mundo real os pesquisadores utilizaram o registro do Danish Breast Cancer Group, com dados retrospectivos de pacientes incluídos no período de abril de 2013 a agosto de 2017. Os endpoints primários foram sobrevida global (SG) e sobrevida livre de progressão (SLP).

Os resultados mostram uma coorte de 291 pacientes registrados, com idade mediana de 58 anos. Destes, 112 (38%) pacientes tinham doença de novo e 179 (62%) apresentavam recorrência. O acompanhamento médio para SG foi de 24,1 meses. A mediana de SG foi de 41,8 meses (IC 95%, 37,7 a NE) e a mediana de SLP foi de 15,8 meses (IC 95%, 14,0 a 19,9). Em pacientes com metástases de novo, a mediana de sobrevida global não foi alcançada, enquanto a mediana de SLP foi de 17,9 meses (IC 95%, 14,3 a 27,3)

“Em um cenário do mundo real com uma população heterogênea de pacientes, a SLP foi comparável ao que se poderia esperar do estudo randomizado relacionado”, descrevem os autores. “Os pacientes de novo apresentaram melhor SG e SLP comparados aos pacientes com recidiva”, apontam.

Apesar de semelhanças com dados do CLEOPATRA2,3, o estudo dinamarquês também mostra diferenças importantes, em especial o padrão de quimioterapia, mais próximo da experiência do HERNATA trial4, o primeiro estudo randomizado a substituir um taxano na combinação com a terapia anti- HER2 (trastuzumabe).

O subtipo HER2 positivo corresponde a cerca de 25% dos casos de câncer de mama. Dados do GLOBOCAN estimam que 2,1 milhões de novos casos de câncer de mama foram diagnosticados em 2018, representando a causa mais frequente de morte por câncer entre as mulheres nos países em desenvolvimento.

Evidências de vida real

César Cabello dos Santos, Professor Associado da UNICAMP e Coordenador da Área de Mastologia do Hospital da Mulher (CAISM/UNICAMP)., comenta artigo de Christensen et al., na The Breast, e destaca a importância dos real world studies.

Por Cesar Cabello dos Santos*

Os estudos de vida real, os Real–World studies, ocupam papel importante na nossa prática clínica. Além de serem evidências in vivo, quando os ensaios clínicos não são possíveis ou não foram realizados, podem oferecer o impacto populacional de uma intervenção em um ambiente não ideal, distante do ambiente controlado dos ensaios de Fase IIII. Por vezes, nos ensaios clínicos de Fase III, os critérios rígidos de inclusão, exclusão e descontinuação caracterizam um ambiente incomum na prática clínica diária. Nos estudos de vida real, as associações estatísticas dos estudos de Fase III podem ter seu poder validado na vida como ela é, influenciadas por características locais das populações, seleção dos sujeitos entre outros fatores.

É nesta linha que foi recentemente publicado um estudo dinamarquês retrospectivo observacional do tipo coorte reconstituído.1 Foram estudadas pacientes HER2+, metastáticas de novo ou não, tratadas em primeira linha com bloqueio duplo com trastuzumabe/pertuzumabe e quimioterapia. Os dados de 12 centros na Dinamarca foram obtidos através do Banco de dados nacional (DBCG database).

A proposta do estudo dinamarquês foi comparar o prognóstico de pacientes tratadas na prática da vida real de um país europeu com os resultados do Clinical Trial pivotal CLEOPATRA2.

Foram estudadas 291 pacientes em um follow-up médio de 24.1 meses.  235 (81%) pacientes receberam pertuzumabe e trastuzumabe em combinação com vinorelbina, 34 (12%) foram tratadas com bloqueio duplo de HER2 e um taxano e 20 (7%) pacientes receberam outro esquema de quimioterapia. Duas pacientes receberam pertuzumabe e trastuzumabe sem quimioterapia. 51 (18%) pacientes receberam endocrinoterapia como parte do tratamento de primeira linha associada ao duplo bloqueio HER2. 42(14%) pacientes receberam mais de 20 meses de tratamento. O tempo médio do duplo bloqueio foi de 11.1 meses (95% CI, 9.1 e12 meses). 150 pacientes foram tratadas por até um ano e outras 106 por mais do que um ano.

Em um follow-up médio de 24.1 meses, a sobrevida global foi de 41.8 meses (95% CI, 37.7-NE) e a mediana de sobrevida livre de progressão (SLP) foi de 15,8 meses (IC 95%, 14,0 a 19,9). Em pacientes com metástases de novo, a mediana de sobrevida global não foi alcançada, enquanto a mediana de SLP foi de 17,9 meses (IC 95%, 14,3 a 27,3). A performance sugere um pior desempenho do que o observado no estudo CLEOPATRA (SG: 56.5 meses com follow-up médio de 50 meses;2 SLP: 18 meses com follow-up médio de 30 meses)3. A maior proporção de casos de novo no estudo CLEOPATRA ( 56% vs 38% ), diferentes tempos de follow-up (30 e 50 meses vs 24.1 meses), além do controle  do estado do HER2 por laboratório central apenas no estudo CLEOPATRA devem  ter influenciado as diferenças nos resultados observados nos dois estudos.

É importante ressaltar que no estudo dinamarquês a droga quimioterápica mais utilizada foi a vinorelbina, devido a opção nacional por esta droga em relação aos taxanos, influenciada pelo estudo HERNATA TRIAL4. Os resultados mostram que vinorelbina apresenta uma alternativa em situações de resistência ou impossibilidade de uso dos taxanos.

Em resumo, este estudo dinamarquês de vida real confirma o grande avanço do uso em primeira linha do duplo bloqueio com trastuzumabe e pertuzumabe associados à quimioterapia no prognóstico de pacientes com câncer de mama HER2 +. Em uma população diversa, com particularidades locais, os resultados podem ser comparados aos obtidos no estudo CLEOPATRA. 

Referências

1 - Christensen, T., Berg, T., Nielsen, L. B., Andersson, M., Jensen, M.-B., & Knoop, A. (2020). Dual HER2 blockade in the first-line treatment of metastatic breast cancer - A retrospective population-based observational study in Danish patients. The Breast, 51, 34–39. doi:10.1016/j.breast.2020.03.002 

2 - Swain SM, Baselga J, Kim SB, Ro J, Semiglazov V, Campone M, Ciruelos E, Ferrero JM, Schneeweiss A, Heeson S, Clark E, Ross G, Benyunes MC, Cortés J; CLEOPATRA Study Group. N Engl J Med. 2015 Feb 19;372(8):724-34. 

3 - Pertuzumab, trastuzumab, and docetaxel for HER2-positive metastatic breast cancer (CLEOPATRA study): overall survival results from a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 study. - Swain SM, Kim SB, Cortés J, Ro J, Semiglazov V, Campone M, Ciruelos E, Ferrero JM, Schneeweiss A, KnoA, Clark E, Ross G, Benyunes MC, Baselga J. Lancet Oncol. 2013 May;14(6):461-71.

4 - Andersson M, Lidbrink E, Bjerre K, et al: Phase III randomized study comparing docetaxel plus trastuzumab with    vinorelbine plus trastuzumab as first-line therapy of metastatic or locally advanced human epidermal growth factor receptor 2–positive breast cancer: The HERNATA study. Journal of Clinical Oncology, 29(3), 264–271. doi:10.1200/jco.2010.30.8213

*César Cabello dos Santos é Professor Associado do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Professor da Pós-Graduação em Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) - UNICAMP, e Coordenador da Área de Mastologia da Divisão de Oncologia Ginecológica e Mamária do Hospital da Mulher "Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti" - CAISM/ Unicamp. 


Leia mais: HERNATA: vinorelbina como alternativa a taxanas no câncer de mama HER2+

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