13052021Qui
AtualizadoQua, 12 Maio 2021 12pm

PUBLICIDADE
Daichii Sankyo

Microbiota como fator prognóstico de sobrevida

waitzberg chiattoneA composição da microbiota pode ser prognóstica de sobrevida para pacientes com neoplasias hematológicas submetidos a transplante alogênico de células hematopoiéticas. É o que mostram os dados reportados por Peled, JU et al na New England Journal of Medicine (NEJM). Dan Waitzberg (na foto, à esquerda), professor da FMUSP e diretor científico da Bioma4me, e o hematologista Carlos Chiattone, professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e coordenador do Núcleo de Onco-Hematologia do Hospital Samaritano, comentam os resultados do estudo.

Os pesquisadores analisaram a composição microbiológica das amostras fecais obtidas de pacientes submetidos a transplante alogênico de células hematopoiéticas, em quatro centros, através de sequenciamento do RNA ribossômico 16S.

O estudo, que tem como pesquisador sênior o hematologista Marcel R.M. van den Brink, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, examinou associações entre diversidade de microbiota e mortalidade usando a análise de riscos proporcionais de Cox. “Para a estratificação das coortes em grupos com maior e menor diversidade, utilizamos o valor mediano da diversidade observado no centro de estudos em Nova York. Na análise de coortes independentes, o centro de Nova York foi a coorte 1 e três centros na Alemanha, Japão e Carolina do Norte compuseram a coorte 2”, descrevem os autores.

Resultados

Foram analisadas 8767 amostras fecais obtidas de 1362 pacientes submetidos a transplante alogênico de células hematopoiéticas, nos quatro centros participantes. A presença de maior diversidade de microbiota intestinal foi associada a menor risco de morte em coortes independentes (coorte 1: 104 mortes entre 354 pacientes no grupo com maior diversidade vs. 136 mortes entre 350 pacientes no grupo com menor diversidade; taxa de risco ajustada, 0,71; Intervalo de confiança de 95% [IC], 0,55 a 0,92; coorte 2: 18 mortes entre 87 pacientes no grupo de maior diversidade vs. 35 mortes entre 92 pacientes no grupo de menor diversidade; taxa de risco ajustada, 0,49; IC95% 0,27 a 0,90).

As análises de subgrupos identificaram associação entre a menor diversidade da microbiota intestinal e maior risco de morte relacionada ao transplante e morte atribuível à doença do enxerto contra o hospedeiro. As amostras obtidas antes do transplante evidenciaram que um padrão alterado, com menor diversidade da microbiota intestinal antes do transplante, foi associado à menor sobrevida. Ao contrário, a maior diversidade da microbiota intestinal no momento do enxerto de neutrófilos foi associada a menor mortalidade, com redução relativa no risco de morte de 29% e 51%, nas coortes 1 e 2, respectivamente.

A conclusão dos pesquisadores indica que o padrão caracterizado por perda de diversidade e dominação por táxons únicos está associado a maior risco de morte.

“Os resultados reforçam a importância da composição da microbiota intestinal (MI) em câncer. Alterações da MI podem influenciar os resultados pós-operatórios de cirurgia de câncer do cólon e do uso de Mabs em câncer de pulmão e melanoma”, esclarece Waizberg. Para o diretor do GANEP Nutrição Humana, a baixa diversidade encontrada poderia, antes do transplante, ser modificada com intervenções específicas de prebióticos, probióticos e simbióticos. “Torna-se de alto interesse para oncologistas considerar a pesquisa da microbiota intestinal de seus pacientes, o que poderá indicar prognóstico e resposta ao tratamento”, avalia.

O hematologista Carlos Chiattone destaca a extrema relevância do artigo na área dos transplantes de células-tronco hematopoéticas. “O papel da composição da microbiota humana no desenvolvimento de diferentes doenças é conhecido há algum tempo. Recentemente, alterações na microbiota vêm sendo descrita como fator negativo na evolução dos transplantes alogênicos, particularmente com a frequência e gravidade da doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH)”, explica.

Chiattone aponta duas questões críticas na disruptura da microbiota durante os transplantes alogênicos: a antibioticoterapia e a dieta. “Estudos pré-clínicos têm mostrado associação com desenvolvimento de DECH. Pequenos estudos unicêntricos têm tentado manipular a microbiota com o intuito de melhorar os resultados dos transplantes. No entanto, persistem dúvidas se estes resultados podem estar sendo impactados por questões de variações geográficas na composição da microbiota. Nesse estudo, o padrão de alteração da microbiota foi similar nos diferentes centros participantes, independentemente da localização geográfica”, observa.

Para Chiattone, o relevante foi mostrar que a maior diversidade na microbiota intestinal no período da recuperação de neutrófilos foi associada com menor mortalidade. “Este estudo nos direciona a buscar alternativas para restauração e preservação da flora intestinal durante o processo de transplante de células-tronco hematopoéticas”, conclui.

O estudo recebeu financiamento do National Cancer Institute dos Estados Unidos.

Referências: Microbiota as Predictor of Mortality in Allogeneic Hematopoietic-Cell Transplantation - Jonathan U. Peled et al - N Engl J Med 2020; 382:822-834 - DOI: 10.1056/NEJMoa1900623


Publicidade
MULHERES NA CIÊNCIA
Publicidade
SANOFI
Publicidade
banner astellas 2019 300x250
Publicidade
banner libbs2019 300x250
Publicidade
Zodiac
Publicidade
300x250 ad onconews200519