04032021Qui
AtualizadoQua, 03 Mar 2021 10pm

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Daichii Sankyo

O lado negro da revisão por pares

Fake_NET_OK.jpgA edição de março da Nature traz artigo de Katarzyna Pisanski e colegas1, que  não economizam adjetivos para acusar publicações "predatórias" de alimentar esquemas de marketing questionáveis e processos de revisão por pares pouco comprometidos com rigor científico ou transparência. “Milhares de periódicos acadêmicos não aspiram à qualidade. Eles existem principalmente para extrair taxas dos autores”, denunciam.

A crítica não vem de hoje. No início de novembro de 2016, a BioMed Central e a Springer anunciaram a decisão de retirar 58 artigos por suspeitas de manipulação no processo de revisão por pares2. O resultado das investigações sugere que pelo menos cinco dos cerca de 60 artigos recolhidos receberam pelo menos uma revisão falsa. Os periódicos mais afetados foram Tumor Biology (25 artigos) e Diagnostic Pathology (23 artigos). As demais publicações peer-reviewed implicadas são Comparative Clinical Pathology (1), Journal of Parasitic Diseases (4 artigos), Cancer Cell International (2 artigos), Journal of Ovarian Research (2 artigos) e World Journal of Surgical Oncology (1 artigo).
 
Em março de 2015, a BMC já havia retirado 43 artigos de seus repositórios, sob a mesma suspeita de fraude científica e manipulação no processo de revisão por pares, a maior parte envolvendo artigos na área de câncer.Na época, o Committee on Publication Ethics(COPE) alertou para o problema e acusou uma série de agências que terceirizavam serviços aos autores de ter sido responsáveis por orquestrar a fraude3. Meses depois o problema se repetiu e outros 64 artigos científicos também foram expurgados. 
 
Decepção
 
Agora, o trabalho de Pisanski e colegas revela um cenário perturbador. Em 2015, eles criaram um perfil fictício, batizado de Anna O. Szust, e submeteram o nome do falso pesquisador aos conselhos editoriais de 360 revistas com revisão por pares. “Oszust é a palavra polaca para 'fraude'”, explicam os autores, que ainda inventaram um currículo no mínimo eclético, atribuindo a Szust falsos títulos científicos e o crédito por capítulos de livros igualmente falsos, de editoras que nunca existiram. Com interesses acadêmicos variados, o personagem transitava da teoria do esporte às ciências cognitivas, com incursões pelas bases metodológicas das ciências sociais. E além do currículo, Szust recebeu contas em redes virtuais, na Academia.edu, Google+ e Twitter, além de uma página no Instituto de Filosofia da Universidade Adam Mickiewicz em Poznań, que só poderia ser acessada através de um link fornecido no CV.
 
O resultado da experiência de Pisanski e colegas mostra um lado negro do modelo de divulgação científica. “Ninguém tentou entrar em contato com a universidade ou com o instituto no qual ‘atuava’ o falso pesquisador”, descrevem os autores. Pelo menos uma dúzia de revistas solicitou pagamento, doação ou outra forma de lucro como condição para ter Szust no conselho.
 
Os autores ainda esclarecem que por duas vezes Szust recebeu propostas envolvendo participação financeira para ser a editora e criar uma nova revista científica com revisão por pares.
 
A integra com os resultados do estudo está disponível em nature.com.
 
Referências:
 
1) Nature  543,481–483 (23 March 2017)  doi:10.1038/543481a 

2) Retractions from Springer and BioMed Central Journals, disponível em https://www.biomedcentral.com/about/press-centre/business-press-releases/01-11-1

3) disponível em http://publicationethics.org/news/cope-statement-inappropriate-manipulation-peer-review-processes

 


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