23062021Qua
AtualizadoQua, 23 Jun 2021 2pm

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Daichii Sankyo

Iatrogenia e risco acidental no diagnóstico de câncer

Ana_Coradazzi_OK_NET_OK.jpgOs pacientes com câncer têm risco elevado de danos iatrogênicos e não-iatrogênicos tanto no período que antecede o diagnóstico inicial, quanto no momento posterior. É o que mostra estudo sueco publicado no British Journal of CancerA oncologista Ana Lucia Coradazzi (foto), médica do Centro Avançado de Terapias de Suporte e Medicina Integrativa (CATSMI) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, comenta para o Onconews.

Os autores discriminam desde danos decorrentes de atividades médicas, como infecções ou sangramentos após tratamentos invasivos, até acidentes autoprovocados.

O risco de automutilação aumentou 5,3 vezes durante as duas semanas que antecederam o diagnóstico, revelando o elevado grau de estresse psicológico do paciente à espera do diagnóstico, assim como a vulnerabilidade ao suicídio e o risco de morte acidental.

Os pesquisadores analisaram todas as lesões relacionadas a admissões hospitalares em pacientes com câncer entre 1990-2010. Eles compararam o período de 16 semanas antes e após o diagnóstico e constataram que entre 720.901 pacientes houve 7.306 injúrias iatrogênicas (incidência de0.60 para cada 1000 pessoas/mês) e 8.331 não-iatrogênicas (incidência de 0,69 por 1000 pessoas/mês) que motivaram a admissão hospitalar durante o período avaliado.
 
Para lesões iatrogênicas, a taxa de incidência foi de 7,0 (IC 95% 6,6-7,4) durante o período de diagnóstico em relação ao período pré-diagnóstico. O aumento do risco começou duas semanas antes do diagnóstico de câncer e atingiu o pico durante as duas semanas posteriores (48,6, de 37,3 a 63,5). Para injúrias não-iatrogênicas, a taxa de incidência foi de 1,9 (1,8 a 2,0) durante o período de diagnóstico. O risco começou a aumentar quatro semanas antes e atingiu o pico nas duas semanas que antecederam o diagnóstico (5,3, de 4,6 a 6,1).
 
Para os autores, o resultado "não é surpreendente, porque os pacientes muitas vezes passam por procedimentos invasivos e acabam por adquirir outras comorbidades relacionadas com o tratamento e com a própria progressão da doença”.
 
“A percepção de que um diagnóstico de câncer é capaz de causar aumento significativo dos níveis de estresse dos pacientes não é novidade para os profissionais da saúde envolvidos com oncologia, assim como também não é surpreendente que esses pacientes estejam expostos a um risco maior de lesões iatrogênicas no período peri-diagnóstico, dada a complexidade dos procedimentos necessários para confirmação etiológica, estadiamento e início do tratamento. O que o estudo revela de forma inédita, no entanto, é a indicação precisa da magnitude desses riscos e o período em que a ocorrência de lesões é maior”, analisa Ana Lucia Coradazzi, membro da equipe de Cuidados Avançados de Suporte e Medicina Integrativa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
 
“O estudo aponta, de forma indireta, o nível de estresse a que esses pacientes são submetidos, especialmente nas quatro semanas que antecedem a confirmação diagnóstica. O dado reflete o impacto emocional que a expectativa de uma má notícia pode exercer sobre o estado emocional dos pacientes, comprometendo sua capacidade de atenção e concentração e, consequentemente, aumentando as chances de lesões acidentais”, acrescenta.
 
Pacientes com câncer no sistema nervoso central e aqueles com câncer colorretal tiveram respectivamente um aumento de 14,7 vezes e 11,5 vezes no risco de injúrias iatrogênicas, "provavelmente refletindo o maior grau de complicação associado com os procedimentos de diagnóstico mais extensos em comparação com outros tipos de câncer”, escrevem os autores.
 
Os pacientes mais jovens, com maior status socioeconômico ou de instrução e sem distúrbios psiquiátricos apresentaram um risco maior de lesões iatrogênicas em comparação com outros grupos de pacientes avaliados.
 
Segundo Ana Lucia, a análise é acurada e de grande significância estatística, permitindo identificar objetivamente quais os pacientes sob maior risco de lesões iatrogênicas (jovens, melhores condições socioeconômicas e culturais, e com diagnósticos realizados em períodos mais recentes). “Além disso, é possível identificar os tipos de câncer em que as lesões iatrogênicas ocorrem com maior frequência”, diz.
 
O risco de injúrias decorrentes de auto-mutilação e acidentes também foi significativo. Houve um aumento de risco de 5,3 vezes durante as duas semanas que antecederam o diagnóstico, sugerindo o elevado grau de estresse psicológico do paciente à espera do diagnóstico, assim como a vulnerabilidade ao suicídio e risco de morte acidental.
 
Em pacientes com câncer do sistema nervoso central e naqueles com malignidades hematopoiéticas e câncer de pulmão, o risco de lesões autoprovocadas aumentou 2,8 vezes e 2,5 vezes, respectivamente.  Por outro lado, pacientes com câncer de pele não-melanoma tiveram relativamente menor aumento de risco que outros pacientes.
 
Para os autores, "o estudo lança luz sobre os grupos de pacientes de câncer de alto risco, proporcionando informações que podem subsidiar médicos e gestores na adoção de estratégias preventivas”.
 
O estudo sugere que clínicos e pesquisadores devem prestar mais atenção à influência de um diagnóstico sobre a saúde e bem-estar dos pacientes e discute intervenções que podem ajudar a reduzir os prejuízos aos pacientes, como estratégias de enfrentamento para ajudar a controlar a ansiedade, reduzir o estresse e outros sintomas psicológicos.
 
“Os doentes não podem desfazer seu diagnóstico, mas intervenções eficazes poderiam limitar a extensão dos efeitos gerados pelo diagnóstico de câncer”, concluem.
 
Para Ana Lucia, de maneira geral, os médicos tendem a concentrar suas preocupações e esforços no manejo técnico das doenças, em especial quando se trata de doenças graves como o câncer, e a disponibilidade cada vez maior de tecnologias avançadas os induz a inseri-las rapidamente na rotina. “No entanto, a identificação precisa de pacientes de alto risco para lesões iatrogênicas peri-diagnóstico de câncer nos alerta para que o cuidado seja redobrado nesses pacientes, e para que nosso bom senso seja acionado antes de cada indicação e realização de procedimentos”, afirma.
 
Para a especialista, fica claro que a subvalorização dos aspectos emocionais envolvidos num diagnóstico oncológico pode ter impacto comparavelmente devastador sobre a qualidade de vida e até mesmo prognóstico dos pacientes. “O reconhecimento dos potenciais danos emocionais nos chama a atenção para a necessidade de estratégias capazes de reduzir esses riscos, como a melhoria da comunicação entre médicos e pacientes, a orientação de suporte psicológico e social, e o encorajamento da participação de familiares e amigos no processo, promovendo apoio e prevenindo complicações. Tal abordagem pode ser tão importante quanto a excelência técnica por si só, permitindo que o tratamento seja realizado com maior segurança e tranquilidade”.
 
Referência: Injuries before and after diagnosis of cancer: nationwide register based study - BMJ 2016; 354 doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.i4218 (Published 31 August 2016) 
 

 


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