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AtualizadoSeg, 19 Abr 2021 9pm

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Daichii Sankyo

Medicina de qualidade

ON5_ENTREVISTA_PG45_NET_OK.jpgEvânius Wiermann, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), alerta para a necessidade de valorizar políticas de prevenção e diagnóstico precoce do câncer. Segundo o especialista, é preciso superar o subfinanciamento à saúde e descentralizar a assistência oncológica para avançar no enfrentamento da doença.

Onconews: A transição epidemiológica avança e, com ela, o câncer, que tem a previsão de superar as doenças cardiovasculares. Estamos preparados ou a oncologia vai ilustrar mais um paradoxo brasileiro?
Evânius Wiermann: É claro que poderíamos estar mais bem preparados, especialmente do ponto de vista público, com um olhar muito mais vinculado à prevenção do que propriamente ao tratamento. A política de educação e prevenção do câncer no Brasil ainda é muito frustrante, tanto no âmbito público como na saúde suplementar, e não há dúvida de que poderíamos trabalhar isso de uma maneira mais ativa. O dinheiro gasto em educação e prevenção certamente será uma economia futura na terapêutica do paciente, mas infelizmente não avançamos no diagnóstico precoce e avançamos pouco na prevenção primária. Existem dificuldades de implementar programas de rastreamento  nacionalmente adequados para o câncer de próstata ou o câncer de intestino,  por exemplo, temas que se encontram hoje em discussão no âmbito público. Claro que existem limitações, mas certamente podemos avançar bastante e equalizar esse processo. Temos o exemplo inspirador de iniciativas como a incorporação da vacina de HPV ao sistema público de saúde, que certamente foi uma grande aquisição e um grande passo na prevenção do câncer. E temos também outras questões que há tempos ocupam a agenda da oncologia, como a incorporação de drogas no sistema público, a dificuldade no acesso às novas tecnologias, e o verdadeiro abismo que existe entre os sistemas privado e público. Imaginar o tamanho do desafio é lembrar que 75% da nossa população é atendida pelo Sistema Único de Saúde. Significa que é extremamente importante minimizar a morbimortalidade por câncer no Brasil, não só pela perspectiva humana, mas também porque os custos na oncologia infelizmente continuam muito intensos. Ou começamos a encarar a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer, ou realmente não estaremos preparados para essa situação nos próximos anos ou décadas.
 
Como aproximar a atenção primária da oncologia?
Esse é um passo importante. Quanto mais precoce a presença do oncologista no caso de uma lesão, menor o risco dessa lesão estar disseminada, menor o custo de tratamento, menor ainda a intensidade desse tratamento. Todo mundo ganha em uma situação como essa. Precisa haver uma conscientização maior, tanto da população quanto do médico não-especializado, em relação ao diagnóstico diferencial do câncer. Isso ainda precisa ser mais bem estruturado. Nós temos uma cultura muito presente na população de sempre procurar um pronto-socorro para investigar os sintomas, em vez de um médico clínico. E o pronto-socorro não tem uma capacidade de investigação e resolução dessas queixas. O indivíduo quer resolver a dor e não necessariamente investigar essa dor, o que é também uma característica da cultura nacional. Acho que é preciso trabalhar mais com os médicos não-especialistas, através de campanhas educativas que nos permitam trazer à população e aos profissionais de diversas especialidades um melhor acesso à informação. Claro que o sistema de referência e contra-referência tem um peso enorme em tudo isso, até para aproximar oncologistas e não-especialistas, porque é sempre muito importante trabalhar de forma integrada.
 
O número de oncologistas brasileiros é suficiente para o nosso panorama epidemiológico?
Nossos números hoje são muito parecidos com os de outros países. O problema maior está na concentração dos oncologistas, muito restrita aos grandes centros. Isso é uma questão pontual da especialidade. Para exercer a oncologia clínica nós precisamos trabalhar com equipes multidisciplinares e essa é uma exigência nos CACONS e UNACONS que cidades muito pequenas podem não ter condição de cumprir. Daí a importância do sistema de referenciamento e contra-referenciamento. O que está faltando realmente é uma disseminação maior da figura do oncologista em locais fora dos grandes centros, mas isso requer uma infraestrutura que permita a esse profissional executar uma medicina de qualidade.
 
Que saídas poderiam diminuir essas desigualdades?
Estamos diante de um país enorme. O Brasil é extremamente heterogêneo do ponto de vista de demanda, seja ela financeira, de tecnologia, de acesso, de especialistas. Nós temos necessidades distintas, de região para região, e precisamos trabalhar de uma maneira fragmentada, com uma alocação objetiva desses recursos financeiros, para permitir que cada região se beneficie ao máximo desse investimento. É a lógica de trazer o melhor resultado qualitativo e quantitativo para cada uma dessas regiões. Questões que assolam o cotidiano da população tratada em São Paulo não têm nada a ver com as questões e os problemas que aparecem em pacientes no Nordeste ou no extremo Norte do Brasil. São cenários radicalmente distintos. Lógico que existe uma questão macro, e aí o subfinanciamento do sistema de saúde aparece como um grande vilão, mas existem aspectos que temos que trabalhar de uma maneira localizada. Por exemplo, o Cariri, no Nordeste, não tem nem água encanada para toda a população. As necessidades daquela população são muito mais básicas do que ter um grande hospital oncológico. É importante traçar o que cada região efetivamente precisa, o que pode ser feito dentro da capacidade financeira do país, para que esses recursos sejam alocados da melhor maneira possível.
 
A assistência oncológica brasileira tem condição de dar um salto quantitativo com qualidade?
Acho que o nosso calcanhar de Aquiles hoje é o subfinanciamento crônico na saúde. E, infelizmente, diante da situação econômica atual do país, não consigo identificar, a curto prazo, um cenário  melhor. O Brasil ainda é um dos países que aporta menos dinheiro por habitante na saúde. Precisamos começar a discutir esse problema porque ainda vai levar um tempo para sair dessa crise e a nossa previsão sinaliza que a saúde será uma das áreas mais prejudicadas. Uma saída é replicar experiências de sucesso que possam ser levadas para comunidades um pouco mais distantes. O Hospital de Câncer de Barretos é um exemplo. A partir de uma iniciativa própria, conseguiu desenvolver um grande centro, um exemplo de sucesso que beneficia regionalmente, e até nacionalmente, uma grande quantidade de pessoas. É um case de sucesso bastante importante, uma iniciativa que não se pode deixar de aplaudir.
 
A inovação tecnológica na oncologia aumenta o desafio da atualização médica. É difícil para o oncologista brasileiro andar a par e passo com tanta novidade?
Na verdade o que a gente tem percebido é que fazer a oncologia geral já está começando a ficar difícil. Temos dados que mostram que há mais ou menos seis anos a oncologia é disparada a especialidade médica que mais publica artigos científicos no mundo. Hoje, cada doença está assumindo um vulto de informação quase compatível com uma especialidade inteira. Então começamos a perceber a subsegmentação no tratamento dos tumores, o que já é observada em outros países.
 
Que participação institucional a SBOC tem assumido e com quais interlocutores dialoga para valorizar a importância de fortalecer a assistência oncológica brasileira?
A SBOC certamente está mantendo um diálogo com o governo, que é o grande financiador da saúde. O Ministério da Saúde, a ANVISA, a ANS, são os nossos grandes entes finais. Temos sempre interlocutores em Brasília para tentar sensibilizá-los a respeito da importância da questão oncológica, mostrando que o câncer é uma doença crônica, que envolve uma grande morbidade, um alto custo financeiro, e propondo a melhora na alocação de recursos. Além disso, estamos sempre junto com a indústria, na tentativa de fazer com que a incorporação tecnológica possa ser realizada da maneira mais factível possível, incluindo também a população que usa a rede pública no Brasil. Recentemente nos associamos a outras entidades, como a Aliança de Pesquisa Clínica no Brasil, para tentar melhorar esse cenário, especialmente na questão regulatória. Temos também interlocução direta com os gestores do sistema suplementar de saúde para que toda a burocracia envolvida na requisição de um tratamento oncológico possa ser resolvida, trazendo mais transparência para o processo, mais ciência, mais lógica. A interação com outras sociedades médicas também é muito importante na oncologia. A gente não trabalha sozinho, em nenhuma circunstância. Estamos sempre em contato com outras sociedades, tentando firmar acordos e desenvolver projetos associados que permitem disseminar um pouco da vivência da oncologia para outras especialidades e, de forma recíproca, obter dos outros colegas a visão de quais são as dificuldades, o que podemos melhorar.
 
A SBOC realiza este ano seu congresso nacional. O que esperar da programação científica desta edição? Por que a escolha do tema “Oncologia Sem Fronteiras”?
O tema do Congresso este ano, ‘Oncologia sem fronteiras’, e a escolha de Foz do Iguaçu (PR), na região da tríplice fronteira, refletem nossa tentativa de dar ao Brasil uma maior visibilidade como um agente importante em relação à América Latina. Nós vamos realizar um Fórum Latino-Americano de Oncologia, com especialistas que irão discutir desde a formação do médico e do oncologista até questões mais complexas, como pesquisa clínica, acesso a tratamento, incorporação e avaliação de novas tecnologias, como os biossimilares. O objetivo é observar o que foi uma experiência de sucesso ou de insucesso em cada um desses países e fazer um retrato do ponto de vista oncológico para identificar o que podemos fazer como um grupo, como um corpo populacional, para melhorar a oncologia da região. O foco principal imediato é a pesquisa clínica, que é um dos grandes avanços que podemos trazer para o acesso dessa população a medicações inovadoras. Vamos trabalhar especialmente essa questão, o que pode ser feito para promover a integração da pesquisa clínica no bloco como um todo.
 
O fórum de políticas públicas realizado no último congresso da SBOC deve acontecer novamente nesta edição? Como vê as diferentes formas de participação do médico neste tema?
Teremos novamente um fórum específico de políticas oncológicas, que vai incluir não só políticas públicas, mas também a política de saúde suplementar. Nossa intenção é inserir o médico nesse contexto político, para que ele possa, de alguma maneira, ser um player importante dentro desse cenário. O oncologista não é apenas um profissional fechado em seu consultório, mas precisa entender que pode ter um papel muito maior na política oncológica nacional. Isso se dá através da conscientização e esse é o papel da SBOC. Trabalhamos para levantar bandeiras da questão assistencial, o congresso tem o caráter de crescimento científico, mas também de crescimento político e social, de conscientização da classe como uma massa crítica capaz de gerar muitos frutos no futuro.
 
Perfil
Evânius Wiermann é oncologista clínico e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
 


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