05032021Sex
AtualizadoSex, 05 Mar 2021 5pm

PUBLICIDADE
Daichii Sankyo

Pós-ASCO 2015 – Ginecologia Oncológica

Na ASCO 2015, foram apresentados dois grandes estudos mostrando o papel da antiangiogênese (bevacizumabe) em primeira linha paliativa no câncer de endométrio (GOG 86P e MITO-END2), além de dados de segurança do aguardado estudo PORTEC3, que investigou o papel da quimiorradioterapia adjuvante na doença. Em artigo, os oncologistas Eduardo Paulino e Paulo Mora, do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), comentam esses estudos e o cenário atual no tratamento do câncer de endométrio avançado ou recorrente.

Na ASCO 2015, foram apresentados dois grandes estudos mostrando o papel da antiangiogênese (bevacizumabe) em primeira linha paliativa no câncer de endométrio (GOG 86P e MITO-END2), além de dados de segurança do aguardado estudo PORTEC3, que investigou o papel da quimiorradioterapia adjuvante na doença. Em artigo, os oncologistas Eduardo Paulino e Paulo Mora, do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), comentam esses estudos e o cenário atual no tratamento do câncer de endométrio avançado ou recorrente.

{jathumbnail off}EVA_NET_OK.jpgO câncer de endométrio é o câncer ginecológico de maior incidência nos países desenvolvidos1. A maioria dos casos ocorre em pacientes pós-menopausa nas quais o sangramento transvaginal dá o alerta para o diagnóstico. Devido à sintomatologia precoce, a grande maioria dos tumores é diagnosticada em estadios iniciais (cerca de 80% estadio FIGO I) sendo o tratamento nesta situação a cirurgia (histerectomia total, salpingooforectomia bilateral associada ou não à linfadenectomia) com posterior avaliação, baseada em fatores de risco, para radioterapia adjuvante2.

Nos pacientes em estágio avançado pouco se avançou nos últimos anos com relação ao tratamento quimioterápico paliativo. Até a publicação do esquema paclitaxel/adriamicina/cisplatina (TAP) não havia estudo que comprovasse o real benefício da poliquimioterapia3. A combinação de carboplatina e paclitaxel, esquema de fácil aplicação e boa tolerância, tornou-se padrão (devido à experiência de grandes centros e dados de análises retrospectivas) muito antes da publicação do estudo de não inferioridade (GOG 209) que o comparou ao esquema mais tóxico de três drogas (TAP)4.
 
Atualmente tem se dado muito valor, como em toda a oncologia, no tratamento direcionado às alterações em vias moleculares específicas. As frequentes alterações na via do PI3K-AKT-mTOR, especialmente no subtipo endometrioide, está se tornando uma das mais estudadas vias para tratamento, especialmente com drogas como temsirolimus, everolimus e ridaforalimus. Outras drogas que ganham destaque são os inibidores da FGFR, combinações de hormonioterpia com inibidores de mTOR e antiangiogênicos (cediranibe, trebananibe, bevacizumab).
 
Na ASCO 2015 foram apresentados dois grandes estudos mostrando o papel da antiangiogênese (bevacizumabe) em primeira linha paliativa (GOG 86P e MITO-END2) e dados de segurança do mais aguardado estudo em câncer de endométrio, o PORTEC3, que trata do papel da quimiorradioterapia na adjuvância. 

GOG 86P – Estudo de fase II randomizado de carboplatina/paclitaxel/bevacizumabe, carboplatina/paclitaxel/temsirolimos e carboplatina/ixabepilona/bevacizumabe no tratamento inicial do cancer de endométrio estágio III/IVA mensurável, estágio IVB ou recorrente5 - Carol Aghajanian, M.D.

O estudo randomizado de fase II inclui pacientes com câncer de endométrio estadios III/IVA, IVB e doença recorrente, randomizados 1:1:1 para 6 ciclos de quimioterapia baseada em paclitaxel/carboplatina/bevacizumabe (PCB), ixabepilona/carboplatina/bevacizumabe (ICB), ambos seguidos de manutenção com bevacizumabe, ou paclitaxel/carboplatina/temsirolimus (PCT) seguido de manutenção com temsirolimus. O endpoint primário, e uma das maiores críticas ao estudo, foi a sobrevida livre de progressão comparada ao controle histórico do braço de carboplatina/paclitaxel no estudo GOG 209.
 
Um total de 349 paciente foram randomizados igualmente para os 3 braços experimentais, com leve diferença nas características com um maior número de indivíduos com histologia serosa para PCT/ICB (23% e 26% respectivamente, comparado a 14% no PCB). Os dados de toxicidade demonstraram nenhum efeito adverso novo, sendo a grande maioria eventos adversos (graus > 2) já esperados pelas medicações estudadas como hipertensão (cerca de 16%) e proteinuria (5%) para o bevacizumabe, e pneumonite (6%), mucosite (15%), e hipertrigliceridemia (4%) para o temsirolimus. Cerca de 25% dos pacientes em todos os braços descontinuaram o tratamento por eventos adversos.
 
Quando comparados ao controle histórico, os dados de eficácia demonstraram ausência de ganho em taxa de resposta (59% x 55% x 52% x 51% para PCB, PCT, ICB e controle do GOG 209) e SLP. Porém houve um ganho de sobrevida global (SG) quando se comparou o PCB com o controle histórico (34 x 25 x 25 x 22 meses, com p<0.039 para PCB x controle GOG 209).
 
Outro objetivo do estudo foi coletar dados a respeito das alterações moleculares no câncer de endométrio. Foi observado que até 44% dos tumores endometriais grau 3 apresentavam alterações no genep53, alteração típica dos tumores do tipo II (especialmente no subtipo seroso) e que confere aos pacientes um pior prognóstico.
 
A conclusão dos autores foi que houve um aumento significativo da SG do braço PCB comparado ao controle do GOG 209, sem diferença nas taxas de resposta e SLP e que esta combinação de PCB merece investigação em estudo randomizado com comparação direta com a combinação de carboplatina e paclitaxel. 

MITO-END-2: Estudo randomizado de fase II de carboplatina/paclitaxel (CP) comparado a carboplatina/paclitaxel/bevacizumab (CP-B) em câncer de endométrio avançado (estágio III-IV) ou recorrente6 - Domenica Lorusso, MD 

O estudo randomizado de fase II randomizou os pacientes para o tratamento com 6-8 ciclos de quimioterapia com CP versus CP-B com manutenção de bevacizumabe até progressão ou toxicidade inaceitável. O endpoint primário do estudo foi sobrevida livre de progressão (SLP), tendo sobrevida global (SG) e taxa de resposta (TR) como objetivos secundários. Os pacientes foram bem balanceados entre os braços: a maioria com subtipo endometrióide (80%), doença recorrente (65%) e sem radioterapia prévia (85%).
 
Cerca de 44% dos pacientes no braço de CP-B tiveram atrasos no tratamento e 9% descontinuaram por toxicidade comparado a 22% e 0 %, respectivamente, no controle (p<=0.05). Houve uma maior toxicidade (grau >2) no CP-B, porém eventos já esperados como HAS (21% x 0%, p<0,01) e tromboembolismo (11% x 0%, p=0,01). Doze eventos adversos graves ocorreram com CP-B e nenhum no controle (em particular: trombose venosa e arterial, e infarto do miocárdio).
 
Os dados de eficácia demonstraram um significativo aumento da SLP para CP-B (8,7 x 13 meses, p=0.036), porém um aumento não significativo da resposta objetiva (54% x 71%) e SG (18 x 23 meses).
 
Os autores concluíram que o estudo atingiu seu objetivo demonstrando aumento significativo de SLP, e que o esquema CP-B é viável e com toxicidade já prevista pelo bevacizumabe. 

PORTEC 3 – Adjuvant chemotherapy and radiation therapy (RT) versus RT alone for women with high-risk endometrial cancer: Toxicity and quality-of-life results of the randomized PORTEC 3 trial7 - Carien L. Creutzberg. MD 

O estudo randomizado de fase III incluiu pacientes com diagnóstico de câncer de endométrio endometrioide estadio FIGO IB grau III ou invasão angiolinfática, FIGO II e III, ou histologia serosa e células claras estadios FIGO I-III, com randomização para radioterapia externa pélvica ou radioterapia concomitante à cisplatina 50 mg/m2 por 2 ciclos, seguido por 4 ciclos de carboplatina (AUC 5) e paclitaxel (175 mg/m2) adjuvante.
 
O estudo teve como endpoints primários a sobrevida global e sobrevida livre de falha. Os endpoints secundários foram qualidade de vida e toxicidade. Na ASCO 2015 foram apresentados os dados do endpoint secundário, com foco nos meses 6, 12 e 24 após a randomização. Os braços foram bem balanceados, com 60% realizando linfadenectomia no estadiamento e 50% estadios I/II.
 
Com relação à toxicidade (analisada pelo CTCAE v3.0) houve mais eventos adversos G3/G4 no braço do tratamento combinado ao término da radioterapia (35% x 13%) e aos 6 meses (68% x 35%), sendo nesta as mais frequentes hematológica (32% x 8%), neurológica (11% x 2%) e gastrointestinal (14% x 7%). Importante frisar que aos 6 meses foi exatamente quando se terminou os 4 ciclos de quimioterapia adjuvante com carboplatina/paclitaxel. Aos 12 e 24 meses, toxicidades grau 2 permaneceram significativas (neurotoxicidade 12% x 2% e 11% x 2%, respectivamente), porém sem significância para os graus 3 em diante.
 
Foi observada uma piora da qualidade de vida (analisada com QLQC-30 e OV28) com o tratamento concomitante, com aumento dos escores de sintomas. Nas avaliações de 12 e 24 meses, apesar de uma pequena piora nos escores funcionais (5-6 pontos de diferença) para a quimiorradioterapia, não foi observada uma piora global da qualidade de vida.
 
Os autores concluíram que o tratamento combinado é viável, apesar de haver um aumento na toxicidade e piora da qualidade de vida principalmente durante e até 6 meses da randomização, que melhora durante o seguimento. A toxicidade neurológica permaneceu como o efeito adverso mais importante.
 
Autores: Eduardo Paulino, oncologista do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e Diretor Financeiro do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA)  
Paulo Mora, oncologista do oncologista do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e Vice-Presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA)

Referências:

1-R. Siegel, J. Ma, Z. Zou, A. Jemal, Cancer statistics, 2014, CA Cancer J. Clin. 64 (2014) 9–29. 


2-SEER Stat Fact Sheets, Endometrial Cancer (2014) http://seer.cancer.gov/statfacts/N. Retrieved 7 April 2015. 


3-Fleming GF, Brunetto VL, Cella D et al. Phase III trial of doxorubicin plus cisplatin with or without paclitaxel plus filgrastim in advanced endometrial carcinoma:
a Gynecologic Oncology Group study. J Clin Oncol 2004; 22: 2159–2166.

4-Miller D, Fillaci V, Fleming G, et al.(2012) Randomized phase III noninferiority trial of first line chemotherapy for metastatic or recurrent endometrial carcinoma: A Gynecologic Oncology Group study. Gynecol Oncol 125:771–773

5- J Clin Oncol 33, 2015 (suppl; abstr 5500)

6- J Clin Oncol 33, 2015 (suppl; abstr 5502)

7- J Clin Oncol 33, 2015 (suppl; abstr 5501)

 


Publicidade
SANOFI
Publicidade
banner astellas 2019 300x250
Publicidade
banner libbs2019 300x250

Estudos Clínicos

Intervenção mindfulness em pacientes com câncer renal metastático

Intervenção mindfulness em pacientes com câncer renal metastático

A psico-oncologista Cristiane Bergerot (foto), do Instituto Unity de Ensino e Pesquisa e do Centro de Câncer de Brasília (CETTRO), foi contemplada com um grant internacional para a realização de pesquisa que avalia o uso de um aplicativo baseado na intervenção mindfulness para pacientes com câncer renal metastático no Brasil.

Leia Mais

Publicidade
banner_janssen2016_300x250_v2.jpg
Publicidade
IBCC
Publicidade
300x250 ad onconews200519