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AtualizadoQui, 19 Out 2017 3pm

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ASCO publica guideline sobre comunicação médico-paciente

ricardo caponeroA Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) publicou um guideline com as melhores práticas para a comunicação adequada de oncologistas com pacientes e cuidadores. O oncologista Ricardo Caponero (foto), coordenador do Centro avançado de Terapia de Suporte e Medicina Integrativa do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, comenta as diretrizes.

A comunicação efetiva do médico é um elemento central dos cuidados oncológicos centrados no paciente. A complexidade do câncer e sua associação sempre presente com a mortalidade requer habilidades de comunicação específicas. Publicadas no Journal of Clinical Oncology, as novas recomendações enfatizam a importância de estabelecer relações sólidas para oferecer cuidados de maneira mais eficaz e otimizar a relação médico-paciente.

"Os clínicos enfrentam uma difícil tarefa: orientar os pacientes sobre o que pode ser a jornada mais assustadora e desagradável de suas vidas. Precisamos preservar a esperança e, ao mesmo tempo, dar-lhes informações precisas", disse Timothy Gilligan, co-presidente do Painel de Peritos da ASCO que desenvolveu a diretriz. "Melhorar as habilidades de comunicação dos oncologistas ajuda os pacientes, e isso é o mais importante", afirmou.

Métodos

A ASCO convocou um painel de médicos oncologistas, psiquiatras, enfermeiros, médicos paliativistas e especialistas em habilidades de comunicação, além de especialistas em disparidades de saúde e advocacy para desenvolver as recomendações. O painel realizou uma revisão sistemática da literatura médica e um processo de consenso formal. A revisão sistemática centrou-se em diretrizes, revisões sistemáticas e metanálises, e ensaios randomizados e controlados publicados de 2006 até 1º de outubro de 2016.

A revisão sistemática incluiu 47 publicações. Com exceção do treinamento do clínico em habilidades de comunicação, a evidência de muitas das questões clínicas foi limitada. O projeto de recomendações foi submetido a duas rodadas de votação de consenso antes de ser finalizado.

Além de fornecer orientação sobre habilidades essenciais de comunicação que se aplicam no cuidado do câncer, as recomendações abordam tópicos específicos, como discussão de metas de cuidados e prognóstico, seleção de tratamento, cuidados de fim de vida, facilidade no envolvimento familiar no cuidado, e treinamento de clínicos em habilidades de comunicação. As recomendações são acompanhadas por estratégias sugeridas para implementação.

Principais recomendações

Segundo as diretrizes, os programas de treinamento em habilidades de comunicação devem estar disponíveis para os oncologistas em todos os níveis de prática clínica. Os médicos devem estabelecer claramente metas de cuidados e garantir que os pacientes compreendam seu prognóstico e opções de tratamento. Os objetivos de cuidado e as decisões de tratamento com base nessas metas devem estar alinhadas com os valores e prioridades do paciente.

Os oncologistas devem proporcionar um ambiente de parceria com os pacientes, encorajando-os a discutir preocupações e a participar das decisões. Essa colaboração promove confiança e cumplicidade, ao mesmo tempo em que os estimula o desempenho de um papel ativo em seus cuidados. Promover o envolvimento familiar e/ou do cuidador é recomendável, desde que com consentimento do paciente.

Quando a doença é incurável, o documento recomenda iniciar conversas sobre as preferências dos pacientes sobre cuidados paliativos e cuidados de fim de vida no início do curso do tratamento, e aumentar a discussão periodicamente com base em sintomas, progressão da doença e preferências do paciente, como cultura, religião ou sistema de crenças espirituais.

Os custos dos cuidados também são abordados nas diretrizes. Segundo o guideline, os médicos devem discutir com os pacientes as preocupações sobre o custo dos cuidados, entender e abordar diretamente as preocupações específicas e encaminhar o paciente e sua família para um consultor financeiro ou assistente social, quando necessário.

Quando apropriado, o documento também sugere o encaminhamento de pacientes e famílias a membros da equipe psicossocial, como conselheiros, psicólogos, psiquiatras e clérigos.

"A diretriz é centrada no paciente e no relacionamento. Ela ressalta que a habilidade fundamental é entender o paciente como um indivíduo, e buscar atender suas necessidades exclusivas", disse Walter F. Baile, co-presidente do Painel de Peritos da ASCO. "As recomendações podem ajudar os médicos a formar uma relação de confiança com os pacientes que é caracterizada pela empatia, honestidade e uma conexão humana com o paciente e a família", conclui.

Referência: Patient-Clinician Communication: American Society of Clinical Oncology Consensus Guideline - DOI: 10.1200/JCO.2017.75.2311 Journal of Clinical Oncology - published online before print September 11, 2017

Comunicação médico-paciente

Por Ricardo Caponero, oncologista e coordenador do Centro avançado de Terapia de Suporte e Medicina Integrativa do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

A princípio pode parecer estranho a publicação de diretivas de consenso a respeito da comunicação entre médicos e pacientes. Toda e qualquer consulta, exceto emergências graves, começa com a anamnese, com um diálogo entre médicos e pacientes a respeito dos sintomas e da sequência dos acontecimentos a respeito da situação de saúde do paciente. Isso, por si só, já demanda uma atividade comunicacional. Se o paciente se expressa de forma incompreensível pelo médico, ou se este não consegue entender claramente o que o paciente expressa, há um grande risco de erros de diagnóstico e de conduta.

Então, seria de se supor redundante e desnecessário fazer recomendações a respeito de como médicos devem falar com seus pacientes, mas não é. A comunicação é cada vez mais truncada.

Há vários motivos para que as dificuldades na comunicação sejam crescentes: falta de treinamento, características da personalidade, falta de tempo, sobrecarga de trabalho, etc. O resultado é que a comunicação é cada vez mais deficiente.

A situação tende a se agravar, com uma nova geração acostumada a se comunicar por correio eletrônico e mídias digitais, com mensagens cada vez mais truncadas, cifradas e restritas, e com a perda da capacidade de compreender a comunicação não verbal, silêncios, olhares...

A comunicação não verbal é fundamental para completar o processo comunicacional. Os pacientes não querem apenas uma informação precisa, eles querem entender, necessitam de explicações, exemplos e contextualizações. Não é por outro motivo que nem o “Dr. Google”, nem o “Watson” parecem ser capazes de superar o contato médico-paciente.

Algumas vezes o paciente não necessita da precisão matemática de dados estatísticos, mas de alguém que segure sua mão e troque um olhar terno, algo incapaz para as máquinas (pelo menos por enquanto) e para profissionais voltados exclusivamente para o primor técnico.

É paradoxal e pleonástico falarmos de “humanização da medicina”. Uma medicina “não humanizada” não poderia ser chamada de medicina. Não se exerce uma boa prática médica sem a proximidade com os pacientes, seres humanos que sofrem. Nesse sentido, as diretrizes publicadas servem como poderoso auxílio para que médicos façam uma crítica de suas habilidades comunicacionais.


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