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AtualizadoTer, 20 Nov 2018 1am

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Abordagem global no controle do câncer

luis antonio santiniO médico e professor Luiz Antonio Santini (foto) foi empossado em julho de 2005 e por mais de 10 anos foi diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva, o INCA. Em entrevista exclusiva ao Onconews, Santini fez um balanço dos 80 anos do INCA e analisou o cenário da oncologia no Brasil.

 

Que balanço o senhor faz dos 80 anos do INCA?
O INCA é uma instituição extremamente importante. Poucas instituições no Brasil têm 80 anos ininterruptos de atividade. Na área de saúde, o INCA é um exemplo único, o que é extraordinário, porque nem o Ministério da Saúde tem esse tempo todo. O próprio Ministério foi criado depois do INCA. Outra característica do Instituto Nacional do Câncer é ter uma história profundamente ligada ao combate ao câncer. Desde sua criação, quando ainda não se sabia muito do que se conhece hoje sobre as causas do câncer, o INCA já pensava na possibilidade de prevenir e na importância de detectar o câncer precocemente. Já pensava também na importância da pesquisa e do ensino para formar profissionais capacitados. Então o INCA tem no seu DNA esse gene da abordagem global do controle de câncer. E ao longo da história veio aperfeiçoando isso, expandindo atividades em todas essas áreas. O INCA foi uma das primeiras instituições do Brasil a ter residência médica, a formar recursos humanos, a ter pós-graduação lato sensu. Foi a primeira instituição não universitária a ter pós-graduação stricto sensu, um programa que foi criado na minha gestão e hoje já temos mais de 250 egressos, doutores e alguns em pós-doutorado. O INCA criou um processo de relação com os estados e municípios de todo o pais no sentido de fortalecer as atividades de controle do câncer, capacitando, treinando as pessoas, transferindo tecnologia. E sempre trabalhou muito em cooperação internacional. Criamos, por exemplo, a rede dos institutos latino-americanos de câncer, em 2005, em um esforço muito grande de cooperação. É um orgulho pertencer a uma instituição como o INCA e, mais ainda, ter a oportunidade de dirigir essa instituição, como eu tive durante dez anos.

O senhor cita com bastante ênfase a prevenção. Hoje, cuidados paliativos começam a ganhar um novo relevo, em todo o percurso terapêutico. Como é a experiência do INCA?
O INCA tem uma experiência de cuidados paliativos importante, foi uma das primeiras instituições, e poucas ainda existem no Brasil, com uma estrutura própria para cuidados paliativos, que é uma unidade hospitalar, mas que não é uma unidade hospitalar qualquer, concentra uma equipe multiprofissional que dá assistência a pacientes em domicilio. A unidade hospitalar é apenas uma possibilidade de cuidados em determinada fase da evolução da doença, mas o objetivo não é a hospitalização, mas o cuidado domiciliar, por equipe multiprofissional. Agora, o que eu quero dizer é que o cuidado paliativo no Brasil é muito aquém da necessidade. O que o INCA faz é um pedaço muito pequeno da grande necessidade que o país ainda tem de cuidado paliativo - e vai ter cada vez mais, porque o número de casos de câncer está aumentando, as pessoas vão viver mais tempo com câncer, não só com câncer, mas com comorbidades. Então, o cuidado paliativo não é só pensado a partir do cuidado de fim de vida, é o cuidado contínuo do paciente com câncer. Eu tenho câncer de próstata, eu sou submetido a uma certa forma de cuidado paliativo, porque a minha expectativa com o tratamento não foi de cura, foi de prolongar a minha sobrevida. Então para isso eu tenho que fazer uma série de atividades que contribuem para isso, eu tenho que fazer fisioterapia, cuidar da minha alimentação, uma série de providencias que não são cuidados hospitalares, mas são cuidados comigo mesmo. E isso é um componente importante do cuidado paliativo, que também é o autocuidado, o processo de educação do paciente. Então o cuidado paliativo é um grande desafio para o Brasil e para o mundo, mas o INCA tem o que oferecer a respeito, não só no atendimento aos pacientes, como faz, mas também em treinamento, em capacitação das pessoas.

Na oncologia, uma questão cada vez mais presente é o gargalo do acesso, acesso ao melhor diagnóstico, ao melhor tratamento. Como o senhor vê a fragmentação público-privada da assistência nesse contexto?
Essa é uma questão muito complexa realmente. O Brasil tem o Sistema Único de Saúde, que é o maior sistema público de saúde do mundo, considerando países com mais de 200 bilhões de habitantes. E é um sistema recente, foi criado na constituição de 1988 e a lei que implantou o sistema é de 90, não tem tanto tempo assim. E ao longo do tempo também se estruturou o sistema privado, suplementar, baseado especialmente em pagamento de planos e seguros de saúde. E a regulamentação desse sistema só foi ocorrer em 1998. Então, esse sistema tem uma série de problemas organizacionais que são resultado da não regulamentação adequada. Então ele começou a funcionar com uma série de distorções, especialmente no que diz respeito à cobertura, ao contrato, qual o compromisso que esse sistema efetivamente tem? Então o acesso é muito comprometido, tanto no público, quanto no privado. No público em função da oferta, a capacidade do sistema público de oferecer tudo o que é necessário ainda não é suficiente. Nós temos, por exemplo, quase 40% dos pacientes de câncer no Brasil ainda sem acesso à radioterapia. Sabemos que radioterapia, quimioterapia e cirurgia são a tríade que trata o câncer. Se você não tem acesso a uma dessas terapias, você está com o seu tratamento prejudicado. Eu identifiquei isso quando era diretor do INCA e nós fizemos um plano de expansão da radioterapia no país, que está sendo implementado. Mas ainda assim, temos outras questões, como as novas tecnologias para diagnóstico e tratamento, que são caríssimas, e continuam a desafiar o sistema público. O sistema de saúde no Brasil é subfinanciado, há dificuldade de recursos financeiros para garantir o acesso. Então o acesso ao diagnóstico e tratamento de câncer no Brasil precisa ser muito melhor, mais organizadamente desenvolvido, com certeza.

Que take home message fica para esse médico envolvido na linha de cuidados em câncer, do generalista ao especialista?
O câncer não é um problema dos oncologistas. O câncer é um problema de saúde pública. A formação dos oncologistas é muito importante, o especialista é muito importante, mas o especialista já encontra o paciente na fase avançada da doença. O sistema de saúde precisa ser capaz de identificar, detectar precocemente os sinais e sintomas de câncer, e o sistema tem que ter um fast track, tem que ter uma linha especifica de regulação de atendimento ao câncer. O paciente não pode ser submetido a um sistema de regulação global, que regula todas as doenças. Tem que ter uma linha, isso faz toda a diferença. Se a pessoa for diagnosticada tardiamente com câncer e se o acesso for comprometido por falta de uma linha específica, a possibilidade de obter o melhor resultado cai enormemente. Nós ainda temos taxas de mortalidade para alguns tipos de câncer, como por exemplo câncer de mama, que já não são mais realidade nos Estados Unidos, Europa, Japão, porque as mulheres têm acesso mais rápido, tanto ao diagnóstico quanto ao tratamento.

E que mensagem fica para o prescritor quando se tem a perspectiva da judicialização na oncologia?
Primeiro, o médico que prescreve precisa estar muito consciente do que ele está prescrevendo em benefício do paciente e acho que isso é muito importante. Nem sempre isso acontece, muitas vezes a prescrição é feita em função de uma novidade que aparece no mercado ou mesmo de uma expectativa que o paciente tem, que não vai se confirmar. Às vezes, a relação do médico com o paciente e sua família não permite que ele esclareça que aquilo que está sendo solicitado, exigido, não vai ter nenhum efeito no paciente, pelo contrário, muitas vezes vai ter efeitos colaterais danosos. O prescritor tem que ser treinado também para entender melhor o que é a transferência do conhecimento, da ciência para a prática. Uma coisa é você ter um trabalho científico que mostra que uma determinada nova droga foi capaz de promover um aumento de sobrevida, digamos, de 50%. 50% sobre o quê? Sobre uma expectativa que era de 3 meses e passou a ser de 4,5 meses? Isso precisa ser discutido com a família, com o paciente, e cada prescritor precisa ter a consciência de que a translação do conhecimento do laboratório para a clínica é um processo. Infelizmente, esse processo é demorado. Todos nós gostaríamos que fosse rápido, mas não é. E no caso do câncer isso é muito dramático, porque no câncer não pode haver demora. A demora é um grande problema para o tratamento de câncer. Mas a realidade é assim, vivemos essa realidade. Então, nós precisamos aprender com isso e trabalhar para melhorar cada vez mais.


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