21012019Seg
AtualizadoSeg, 21 Jan 2019 12am

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Caminhos da assistência oncológica

Roberto Gil SFBO bxRoberto de Almeida Gil (foto), nome de referência da oncologia brasileira, fala dos 80 anos do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e discute caminhos e perspectivas para a oncologia brasileira.

 

Que síntese o senhor faz dos 80 anos do INCA?

O INCA foi criado há 80 anos, quando todas as unidades que estavam no Rio de Janeiro eram chamadas de Instituto Nacional, como herança da capital da República. Mas o INCA foi crescendo, acumulando conhecimentos, e foi se tornando efetivamente um Instituto Nacional. O conhecimento acumulado nessa instituição é muito grande e na década de 80 e 90 começamos a capilarizá-lo, constituindo a Política de Atenção Oncológica que reflete até hoje os cuidados na nossa área. Acho que o INCA vive hoje um momento difícil, houve um momento de reestruturação e agora estamos em um momento de crise, de fragilidade da instituição, mas não podemos de jeito nenhum jogar fora, desprezar esse conhecimento acumulado. O INCA tem um papel assistencial relevante, mas o INCA tem também um papel em pesquisa, em formação de recursos humanos e de políticas de gestão que, sem dúvida alguma, é um papel muito grande. Acho que o INCA influenciou outros centros e conseguiu capilarizar esse esforço para todo o Brasil. Hoje, temos que retomar esse processo de construção estratégica das instituições envolvidas no controle do câncer. Temos não apenas o INCA, mas ICESP, IBCC, Barretos, Jaú, hospitais de diferentes lugares do Brasil que, mais uma vez, têm que sentar juntos, trocar experiências e práticas, somar esforços para definir prioridades de investimentos. Precisamos dessa grande aliança para avançar no controle do câncer em um país de dimensão continental, com as dificuldades e as diferenças regionais que existem. A oncologia está ficando muito cara. Definir prioridades é essencial para alocar recursos da melhor maneira. Hoje, estamos investindo muito na doença metastática e isso pode prejudicar os processos iniciais, tanto na prevenção, como no diagnóstico precoce e no tratamento da doença inicial. Temos que equilibrar o sistema para que todo mundo possa se beneficiar.

Se pudesse hierarquizar as necessidades da assistência oncológica, o que o senhor elegeria como prioridades?

Enquanto se pensar de maneira fragmentada, o resultado não vai ser o melhor. Não vai existir radioterapia sem a boa cirurgia, e não vai existir um resultado mais eficiente da própria radioterapia sem a quimioterapia ou sem os novos tratamentos sistêmicos que existem hoje. A gente aprendeu que o câncer é muitas vezes um tratamento sistêmico. Claro que precisamos analisar o déficit tecnológico, que é muito grande, e a rapidez da incorporação tecnológica também tem que ser ampliada. Mas se você me perguntar qual é a maior dificuldade que eu vejo hoje, é a média complexidade. Os pacientes estão chegando nas unidades de câncer com doença muito avançada. Sem dúvida, esse é um problema central, em um contexto que é complexo. Eu tenho um déficit de radioterapia muito grande ainda, déficit de salas de cirurgia, tenho problema com anestesistas hoje, porque a gente não está conseguindo incorporar  anestesistas no sistema público, mas  ainda existe um gargalo no diagnóstico e o paciente brasileiro chega com doença avançada. O saldo de tudo isso é um tratamento que é menos efetivo e muito mais custoso. E isso para o sistema é a pior coisa que pode acontecer, porque não muda os indicadores. Se a gente só trata a doença avançada ou a doença terminal, pode melhorar a qualidade de vida daquela pessoa, mas não vai mudar os indicadores. Se a gente não consegue investir em uma fase de prevenção, não consegue mudar a incidência, como está acontecendo em países desenvolvidos. Então, vivemos uma disparidade. Para um segmento da população conseguimos oferecer assistência e acompanhar as curvas epidemiológicas da medicina dos países desenvolvidos, mas infelizmente existe um grande contingente excluído disso tudo. Acho que definir prioridades hoje, só de forma conjunta. Se eu disser que vou alocar meus recursos prioritariamente para a radioterapia, como vão ficar as outras unidades, considerando que uma série de incorporações também não foram feitas? O gap entre a saúde suplementar e a saúde pública só aumenta, e isso não pode acontecer,  inclusive porque é uma questão ética do profissional. Eu não posso tratar um paciente no meu consultório de uma maneira e em um hospital público de outra. Aquelas duas pessoas merecem igualmente o meu respeito e a minha consideração cientifica, assim como merecem da mesma maneira a minha dedicação e o meu compromisso profissional. É muito difícil. O que a gente tem que definir hoje são exatamente planos estratégicos do que se pode fazer, definir como vai fazer a redução de custos, como vai ser o risco compartilhado. O que não se pode aceitar de jeito nenhum é o congelamento do investimento em saúde pública por 20 anos. Isso é uma loucura! Nossa população está envelhecendo, a gente vai ter uma população com mais doença crônica e o câncer está dentro disso. Como eu vou poder conviver com uma especialidade onde eu tenho incorporação tecnológica de um lado, um aumento da incidência de outro, e um investimento que está congelado? Isso é impossível, essa equação não fecha. Então, a gente está no pior dos mundos e só tem uma maneira de sair: sentar juntos, discutir, reunir forças, todo mundo junto, e não cada um separadamente querendo resolver o seu problema. Acho que esse é o caminho.

*Roberto de Almeida Gil é oncologista clínico, ex-chefe da Oncologia Clínica do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e ex-presidente da SBOC, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Atualmente, é médico do staff do INCA e do corpo clínico da Oncoclínicas, no Rio de Janeiro.


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